Folha de S. Paulo


"Eu mudei o fotojornalismo, posso me gabar", diz Walter Firmo

"Eu sou um mulatinho de Irajá, amigo de Cartola e Carlos Cachaça, que anda com uma câmera pendurada no pescoço". O pingente de máquina fotográfica em seu colar prova que Walter não exagera.

Jornalista, professor e fotógrafo autodidata, Walter Firmo Guimarães da Silva, 80, acumula em 60 anos de carreira fotos emblemáticas e numerosas premiações.

Ganhador do Prêmio Esso de Reportagem pela matéria "Cem Dias na Amazônia de Ninguém" (1963) e premiado sete vezes no Concurso Internacional de Fotografia Nikon, o autor é homenageado com a exposição "Um Passeio Pela Nobreza", que abre amanhã (20) na galeria Mario Cohen.

Conhecido por fotografar artistas renomados como Clementina de Jesus e Chico Buarque, Walter também aponta sua câmera para a anônima cultura negra dos subúrbios.

Retratando as cores e costumes do povo brasileiro é, antes de fotojornalista, um poeta do cotidiano.

Leia abaixo a entrevista.

Como você se descobriu fotógrafo?
A fotografia entrou na minha vida quando eu tinha 2 anos e meio, galopando nas costas do meu pai numa estradinha de chão batido no Irajá. Era uma fazenda que durante o dia o gado pastava e à noite tinha uma paisagem linda com a lua iluminando jaqueiras, mangueiras e a relva. Isso ficou guardado em mim até que o meu pai, que era um boêmio, chegou um dia às 4h da manhã e pediu que eu levantasse pra me dizer "Walter, você sabe que a fotografia vale mais que mil palavras?". Eu não entendi nada. Com 11 anos eu quis ser padre estudando num colégio salesiano em Corumbá. Eu já atinava essa questão de trabalhar com as pessoas, queria ser um humanista. Só não poderia ser um bom padre porque já me demorava no banheiro mais de uma hora (risos). A vida seguiu, com 14 anos eu fui cantor de um programa infantil da rádio Tupi chamado "Clube do Guri". Cantei algumas vezes lá obtendo sucesso, mas não quis ser cantor porque para atingir sucesso você tinha que passar por cima de cadáveres e eu, com a minha moralidade de 14 anos, achava que aquilo não era correto. Fazendo ginásio a professora de canto pediu pra que eu fosse à biblioteca da escola fazer uma pesquisa sobre música, mas o primeiro livro que eu fui pegar foi sobre fotografia, o "Como revelar". Comecei a folhear, assim curioso, porque na época a revelação lidava fundamentalmente com sais e drogas. Eu me sentia um bruxo. Disse pra mim mesmo: 'acho que é isso o que eu quero da minha vida'. É como se um anjo anunciasse pra mim: "Vai que é tua, Walter".

Você tem alguma religião?
Acredito numa pedra. Eu sou filho de Xangô. Muitos não consideram uma religiosidade a questão africana, mas fui batizado numa igreja católica. Minha protetora é Nossa Senhora da Conceição. Eu trabalho muito com espiritualidade. Sou uma pessoa simples, fã da igualdade e que trabalha muito essa postura de acreditar no outro. 'Yo no creo en brujas pero que las hay, las hay'. É uma coisa que eu sinto, mas cada um pode sentir de maneiras diferentes.

Qual foi a sua primeira fotografia?
Foi uma em preto e branco numa parada de ônibus na Dutra. Eu ia com a minha mãe visitar meu pai, que era enfermeiro de bordo no navio da marinha mercante. Paramos para fazer um lanche na altura de Guaratinguetá e eu vi uma paisagem com um lago, nuvens e uma montanha pro lado do Atlântico. Foi a minha primeira foto, uma paisagem. Nesse dia meu pai me deu de surpresa uma Rolleiflex. Imagina, dava até samba naquela época! Mas eu saí logo depois da paisagem e fui socialmente defender os fracos e oprimidos. Logo vi que aquilo não era o que eu queria e comecei a trabalhar pela poética da imagem. Até hoje quem vê uma foto minha, principalmente se for cor, vai sentir que tem uma estética poética que lembra o Walter e poderá acertar o autor.

De onde vem essa poética?
Eu fui criado num bairro médio em Irajá como filho único até os cinco anos de idade. A minha mãe, namorada do meu pai, saiu pra morar com ele em algumas casas de subúrbio e eu era criado pela minha avó. Ela não me deixava brincar. Eu era muito prisioneiro em casa e uma criança muito presa trabalha seus sonhos consigo mesma, elabora um mundo fictício além do céu azul, das parábolas dos desenhos das árvores. Pra mim em tudo o que era simplicidade eu via poesia. Eu acho que fiz uma poesia na minha solidão como criança. A minha assinatura é a poesia.

O que você diria ser essencial para um fotógrafo?
Primeiro o respeito ao outro. Eu fui um fotojornalista absurdo porque eu detestava me sentir um desses fotógrafos que se guarda dentro de uma mala pra fotografar a Brigitte Bardot. Eu nunca vi a fotografia dessa forma, nunca me considerei verdadeiramente um fotojornalista, sempre fui um esteta. Eu mudei o fotojornalismo, posso me gabar de dizer isso porque, no nível dos meus 80 anos, todos da minha geração sabem que quem mudou a estética do fotojornalismo foi o Walter.

O que mais te marcou na sua profissão?
Quando a Bigitte Bardot se escondeu em Búzios com o namorado brasileiro. A imprensa de todo o mundo estava procurando. Fiquei lá uns dois dias rodando com o motorista e uma hora parei para pedir uma informação, ver se alguém tinha visto alguma loira. Quando me aproximo, quem eu vejo? A própria ali, olhando pra mim, querendo saber o que eu estava perguntando. Naquela hora pensei: "Corro pra pegar a máquina ou não?". Decidi que não e deixei o pássaro voar com vida. Pedi ao motorista que não comentasse isso no na redação e ela, dois dias depois, deu uma entrevista coletiva e o assunto morreu. Eu guardei isso a sete chaves porque do contrário certamente ia ser mandado embora.

Tem algum arrependimento?
Eu faria tudo outra vez. Minha mãe não queria que eu fosse fotógrafo, mas não me arrependo porque isso me fez ficar tão mais filho dela, tão mais admirado da minha mãe. No dia que ela morreu a nora dela me contou que uma das vezes que ela foi receber o soldo pela morte do meu pai, deu vontade dela fazer xixi. Ela estava apertada e não achava um lugar, até que se dirigiu a um guarda e disse assim: "Seu guarda, me arranja um banheiro? Eu sou a mãe do Walter Firmo". Nunca falhou aquela escorpiana que adorava me ver feliz, nunca me faltou isso. Foi preciso ela morrer e uma nora dela me confessar isso.

Você deixaria algum recado para quem quer ser um fotojornalista?
Primeiro respeite quem for fotografar. Trabalhe com a honestidade da verdade e não tenha medo. Se faça arrogante na hora que você for fotógrafo porque você é dono da verdade. Se entenda, se faça, se respeite e comemore no dia que você receber um prêmio pelo respeito na sua atuação.

UM PASSEIO PELA NOBREZA

QUANDO de 20 de outubro a 18 de novembro

ONDE Rua Joaquim Antunes, 177, cj. 12 - Jd. Paulistano, SP, tel. (11) 3062-2084

QUANTO Entrada gratuita


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