Folha de S. Paulo


Igor Gielow: Erro de cálculo afasta o PMDB do Planalto

Alan Marques - 10.jun.2014/Folhapress
O vice-presidente Michel Temer observa Renan Calheiros (esq.) cumprimentar Eduardo Cunha em convenção do PMDB
Michel Temer observa Renan Calheiros (à esq.) cumprimentar Eduardo Cunha em convenção do PMDB

O propalado bom humor de Dilma Rousseff após ter enxugado a silhueta com uma dessas dietas da moda está sendo posto à prova nesta quarta (4), um dia após ter sofrido um revés histórico do Senado e quando irá fazer algo que notoriamente odeia: conversar com grupos de políticos para tentar amenizar a crise no Congresso.

A presidente precisa reconquistar o PMDB, maior partido aliado ao PT no condomínio governista. A devolução da medida provisória das desonerações por um magoado Renan Calheiros nesta terça-feira (3) avermelhou a luz amarela que piscava na relação entre o Planalto e a sigla.

O histórico recente é de fracassos. Após a reeleição, Dilma fez de tudo para estimular a engorda de aliados até então secundários, como Gilberto Kassab. Depois, permitiu ao PT entrar numa encarniçada e inútil batalha para tentar evitar a eleição de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) à presidência da Câmara.

Por fim, prometeu espaço ao partido ao angariar seu apoio nominal ao ajuste fiscal –enquanto enviava MPs impopulares para o Congresso.

O que aconteceu? O PMDB estimulou a aprovação de regras que dificultam a vida de Kassab, que quer um partido novo para chamar de seu. Cunha rege a Câmara com poderes desconhecidos até então na era petista.

Com o próprio PT se recusando a apoiar o arrocho, a MP da desoneração virou um tímido projeto de lei, que demorará uns bons três ou quatro meses para ser votado.

RENAN

Nesse contexto, Renan era vendido pelo Planalto como aliado fiel, contrapeso à Câmara hostil de Cunha. Mas uma combinação de fatores o alienou. Foi ignorado na composição ministerial, perdeu seu feudo na Petrobras (a Transpetro) devido às suspeitas sobre seu apadrinhado por lá e, cereja do bolo, virou alvo da Operação Lava Jato.

Renan nunca admitirá, mas paredes amadeiradas dos gabinetes brasilienses sabem que ele e Cunha apontam o dedo para o Planalto quando o assunto é a Lava Jato. Creem que Rodrigo Janot, o procurador-geral, está mancomunado com o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) –de aferível nisso, sabe-se apenas que ambos são muito próximos mesmo.

Adversários dos peemedebistas veem na atitude dos caciques apenas cortina de fumaça para desviar o foco de eventuais culpas no cartório, e apontam para o fato de que até aqui é o PT o maior prejudicado pelas investigações da Polícia Federal e Ministério Público Federal sob a batuta do juiz Sérgio Moro. Logo, haveria isonomia na pancadaria.

Independentemente de qual versão é verdadeira, o Planalto ganhou um problemão para si. O "fiador" Renan está mais radicalizado do que Cunha, embora todos ainda esperem a hora em que o deputado irá sacar as armas.

GOVERNABILIDADE

Sem goverrnabilidade mínima nas duas Casas do Congresso, Dilma fica extremamente exposta em um ambiente volátil, em que passeatas contra a presidente são marcadas e a palavra impeachment é dita sem pudores nos meios políticos.

Em termos de contribuição para o ajuste fiscal, a MP devolvida ontem não arranhava a superfície –coisa de 5% a 10% do esforço. Mas o problema é a sinalização ao mercado de que o governo não fará avançar sua agenda, até aqui garantida apenas pelo gogó e a tesoura do ministro Joaquim Levy (Fazenda).

Mas há limites para cortes que ele pode fazer, e a tal restauração da credibilidade passa pela sensação de que há inteligência política nas negociações em curso.

A chave para a reconquista do PMDB poderia ser a verdadeira inclusão de Michel Temer, o vice peemedebista de Dilma, no núcleo do poder. Para Renan e Cunha, contudo, esse tempo já passou. O jogo, que não se mostrava fácil, começou muito mal para o governo, a despeito do suposto bom humor da presidente.


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