Folha de S. Paulo


Busto de Rubens Paiva é inaugurado após reabertura do processo da morte

Dois dias depois de a Justiça reabrir o processo que investiga a morte de Rubens Paiva por militares, um busto do deputado morto durante a ditadura foi inaugurado nesta sexta-feira (12). O busto está numa praça que fica em frente ao antigo DOI-CODI, onde Paiva foi torturado e possivelmente morto. Hoje, funciona no local o 1º Batalhão da Polícia do Exército.

A data dos eventos foi uma coincidência. "É como se a gente tivesse finalmente um lugar para homenageá-lo. Agora eu tenho um lugar onde posso trazer flores. Essa experiência de quem tem familiar desaparecido é a dificuldade de encerrar esse ciclo de luto", disse Vera Paiva, filha mais velha do deputado.

Na última quarta-feira (10), a Justiça decidiu, pela primeira vez, que os crimes praticados por militares durante a ditadura (1964-1985) são considerados crime contra a humanidade.

Reprodução
O deputado Rubens Paiva, que desapareceu após ser levado por militares na ditadura
O deputado Rubens Paiva, que desapareceu após ser levado por militares na ditadura

O processo que investiga a morte de Paiva estava paralisado na Justiça a pedido de cinco militares acusados de assassinar e ocultar o corpo do ex-deputado. Eles pediam a prescrição do crime e alegavam incompetência da Justiça Federal de julgar o caso.

Os guardas do Batalhão observaram a cerimônia de dentro do quartel.

"Queria poder dizer a eles que eles não têm nada a ver com isso. Que espero que eles não sigam o mesmo caminho", disse Vera.

Em relação ao fato de o busto estar logo em frente ao local onde seu pai morreu, Vera comentou: "É um direito. Eu não tenho que aguentar Elevado Costa e Silva, rodovia Castello Branco?"

O Secretário Municipal do Meio Ambiente, Carlos Alberto Muniz, que participou da cerimônia representando a prefeitura, também comentou o fato.

"Nós não temos que nos envergonhar e nem achar que é provocação. Aqui ele [Paiva] viveu uma parte trágica da sua história, porque aqui a família dele foi humilhada", disse.

"Ninguém entrou aqui por acaso, mas ninguém entrou porque era criminoso, entrou porque tinha um lado, e é esse lado que estamos resgatando", acrescentou.

O busto é uma homenagem do sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio e da Federação Interestadual de Engenheiros e teve apoio da Prefeitura do Rio.

Uma exposição que conta a trajetória de Rubens Paiva foi montada na praça para comemorar a inauguração.


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