Folha de S. Paulo


Notícias falsas ameaçam imprensa, diz reitor de jornalismo de Columbia

A maior desafio do jornalismo não é encontrar um modelo viável de financiamento na era da internet, mas sim resistir aos ataques cada vez mais raivosos dos governos populistas contra a imprensa e à proliferação das "fake news". Essa é a opinião de Steve Coll, reitor da Faculdade de Jornalismo da Universidade Columbia em Nova York.

Raphael Satter - 2.dez.2016/Associated Press
Site hospedado na Macedônia mostra notícias falsas sobre Hillary Clinton e Michelle Obama
Site hospedado na Macedônia mostra notícias falsas sobre Hillary Clinton e Michelle Obama

Para ele, nunca houve uma campanha tão ostensiva de intimidação de jornalistas. E Coll aponta para a importância de desenvolver métodos para investigar e responsabilizar os novos donos do poder —nos dias de hoje, isso inclui fazer engenharia reversa dos algoritmos que determinam tantas decisões, seja nas redes sociais, empresas ou governos.

Coll virá ao Brasil para participar do seminário internacional de jornalismo da ESPM-Columbia Journalism School, dia 9 de outubro, na ESPM.

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Folha - Governos nos Estados Unidos e vários outros países têm assumido uma postura de antagonismo à mídia, com vários ataques a jornalistas. O senhor acha que isso é cíclico ou existe um ataque mais exacerbado desta vez?

Steve Coll - Em toda a minha vida, nunca vi uma época com tantos ataques ao jornalismo profissional, nem na época do Watergate ou dos anos 60 nos EUA.

Esses ataques são mais raivosos por causa das campanhas populistas de intimidação nos espaços digitais, além da poluição do ecossistema do jornalismo com notícias falsas fabricadas e propaganda digital sem mencionar os ataques do presidente (Donald) Trump e seus aliados.

Espero que isso seja cíclico, que seja temporário o populismo que estamos vivendo neste país e o nacionalismo autoritário ao redor do mundo. Mas podemos estar diante de um período de trevas mais longo.

Qual é a ameaça mais séria contra o jornalismo hoje, o ecossistema que o senhor menciona, com fake news e ataques de governos contra a imprensa, ou a dificuldade de encontrar um modelo para financiar o jornalismo?

As ameaças econômicas são significativas, mas acho que o maior problema são os ataques contra a mídia. Passamos pela primeira onda de ruptura digital, e a importância do jornalismo não desapareceu, basta olhar para o tamanho das audiências consumindo conteúdo de grandes jornais ou TVs que têm operações digitais - é enorme.

A transição é difícil, porque envolve mudanças na publicidade e a ascensão de semi monopólios como Google e Facebook que minaram o modelo de negócios dos jornais. E as TVs enfrentam uma ruptura, porque os jovens cancelam suas assinaturas de TV a cabo e param de pagar por coisas pelas quais costumavam pagar.

Mas está provado que o conteúdo noticioso ainda é muito poderoso, e há atores fortes, como a Netflix, que já começaram a investir em jornalismo e produção de documentários. É inevitável que outros novos participantes, como a Amazon e a Apple, se tornem produtores ou financiadores de notícias. Grupos econômicos vão pagar pela apuração de notícias nos próximos 10 ou 20 anos.

Quais veículos têm conseguido ser rentáveis com assinaturas digitais?

O "New York Times" está quase chegando lá —61% da receita deles vêm de assinaturas (digitais e impressas - 20 anos atrás, era o inverso, publicidade respondia por 60%). A taxa de crescimento das assinaturas digitais é impressionante (63,4% no segundo trimestre de 2017, em relação a 2016).

O "Washington Post" também está crescendo. Eles dizem já ser lucrativos, mas é difícil saber, porque são empresa de capital fechado. No noticiário econômico, sabemos que o modelo baseado em assinaturas vai funcionar no longo prazo, porque as notícias criam valor, então as empresas se dispõem a pagar por isso.

Então a dúvida são os jornais ou TVs médias ou regionais, que provavelmente não vão conseguir persuadir leitores e espectadores a pagar. Esses veículos estão ameaçados e terão, em última instância, que se fazer valiosos para grandes plataformas como Facebook e Netflix. Muitas comunidades já deixaram de ser atendidas por jornalismo profissional, são os chamados desertos de notícias.

O senhor tem ressalvas em relação de jornalismo sem fins lucrativos ou acha que é uma boa saída?

É uma contribuição importante e necessária, o grande desafio é escala. Como distribuir reportagens de interesse público, financiadas por filantropos, para audiências em todo o país, e não apenas na Costa Leste e Oeste? O jornalismo sem fins lucrativos segue o padrão comercial no sentido de estar baseado nas costas e não no interior do país.

Michael Conroy - 27.set.2017/Associated Press
O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa no evento em que anunciou reforma tributária
O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa no evento em que anunciou reforma tributária

A crítica de que a grande mídia americana é anti-Trump é justificada?

De forma geral, não acho que essa crítica tenha mérito. A mídia está fazendo o que a Constituição reconhece ser necessário, revelar lapsos éticos da equipe de Trump, sua tentativa de esconder do público informações como seu histórico empresarial e quais fontes de receita podem criar conflitos de interesse.

Se um presidente democrata estivesse no cargo e se recusasse a divulgar sua declaração de imposto de renda, contratasse funcionários sem checar seus históricos e dissesse que a mídia é inimiga do povo, a imprensa teria reagido com o mesmo vigor, foi isso que fizeram no governo Clinton, havia muita reportagem sobre seus negócios em Arkansas e acusações de corrupção.

Em um artigo para o "Columbia Journalism Review", o senhor menciona a engenharia reversa de algoritmos como ferramenta de apuração jornalística —em que consiste e por que é importante?

Trata-se de reconhecer que a estrutura de poder na sociedade está mudando e uma nova fonte de poder são os algoritmos e os programadores que os criam, seja em redes sociais, empresas, ou governos.

Não é só um programa de computador que aloca informação automaticamente, não há transparência sobre quais pressupostos são incorporados nesse programa, e isso causa problemas do tipo: será que esse algoritmo é discriminatório por raça, renda ou localização geográfica?

Por exemplo, um sistema que me dá um determinado preço de seguro quando entro online e insiro meu CEP, e dá outro preço para uma pessoa com outro CEP.

A ProPublica produziu uma série no ano passado sobre uma fórmula usada em tribunais da Flórida para assessorar juízes a determinar as penas para condenados, baseado na probabilidade de a pessoa cometer outro crime.

Quando fizeram engenharia reversa desse algoritmo, concluíram que a fórmula discriminava por raça, resultava em maiores condenações para negros e hispânicos.

Esse é o tipo de trabalho que, nos velhos tempos, era feito por meio de entrevistas, pedidos por meio da Lei de Acesso à Informação e análise de padrões em séries de dados. Para fazermos isso hoje, são necessárias habilidades computacionais ou possibilidade de trabalhar em equipe com alguém que tenha essas habilidades.

Houve uma discussão acalorada sobre o papel da mídia na ascensão de Trump. A mídia foi culpada por não ter levado Trump a sério e não o investigar como deveria, ou ajudou a eleger Trump porque cobria excessivamente cada um de seus comentários no Twitter?

A mídia de fato não levou Trump a sério nos primeiros meses da campanha e ele não foi escrutinado, suas declarações falsas não foram contestadas. Então essa foi uma falha importante.

Já a questão do Twitter é complicada. Uma vez que ele é um candidato competitivo, o que ele diz é importante e deve ser coberto —seja no Twitter ou outro lugar.

Mesmo que ele não seja inteligente o suficiente para manipular o ciclo de notícias conscientemente, é fato que ele está sugando recursos jornalísticos que deveriam ser dedicados a cobrir políticas de seu governo, como os novos critérios dos agentes de imigração para deportar crianças.

Se você está cobrindo o comentário no Twitter e prestando atenção em quem ele está xingando agora, e, por isso, não está fazendo esse outro trabalho, realmente deveria se questionar.

Flávio Tavares/Hoje em Dia/Folhapress
Jair Bolsonaro durante palestra na Fumec, universidade privada de Belo Horizonte (MG)
O deputado Jair Bolsonaro durante palestra na Fumec, universidade privada de Belo Horizonte (MG)

Haverá eleições presidenciais no Brasil em 2018 e um dos prováveis candidatos é um populista de direita que usa muito as redes sociais, Jair Bolsonaro. Que conselho você daria aos jornalistas brasileiros?

Os jornalistas americanos mudaram a metodologia de fazer matérias baseadas em declarações públicas por causa de Trump. Eles passaram a apontar declarações falsas em tempo real.

Foi um pouco chocante no início desenvolver a linguagem para isso, havia pruridos em dizer que algo era uma mentira, porque implica motivação. Mas dizer que era uma informação falsa simplificou.

Por exemplo, quando o presidente falou em 3 milhões de eleitores ilegais, uma declaração para a qual não há nenhuma prova, isso foi apontado na hora. Integrar a checagem de fatos na apuração de apuração de notícias em tempo real é essencial ao cobrir populistas como Trump.

O senhor acha que isso, de alguma maneira, compensa a tendência dos políticos de tentar se comunicar diretamente com o eleitor pelas redes sociais, sem intermediação de jornalistas?

Eu acho que ajuda. Mas é bem difícil quando há produção de notícias falsas, não necessariamente pela equipe do candidato, por empresas que fabricam fake news tentando gerar manchetes em que as pessoas vão clicar ou movimentos de propaganda aliados a políticos populistas que usam redes sociais para propagar noticias falsas ou enganosas, muitas vezes por meio de bots.

A poluição desses espaços de mídias sociais está aumentando e as eleições são grande uma oportunidade. É necessário ter uma resposta forte por parte das plataformas de mídias sociais, coisa que elas não fizeram até agora, mas começam a se mexer.

E também é necessário ter um sistema nacional de envolvimento e intervenção, algo que, aqui nos EUA, não conseguimos implementar por causa da Primeira Emenda (que defende a liberdade de expressão). Na Europa, países como Alemanha e França foram bastante pro-ativos nesse combate a notícias falsas.

Os jornalistas podem fazer alguma coisa para combater as notícias falsas?

Nós precisamos nos disciplinar para adotar métodos de verificação a respeito de conteúdo digital. Às vezes são criadas campanhas com imagens ou notícias falsas, na esperança de que os jornalistas as retuítem e as legitimem. Usam exércitos de bots para criar trending hashtags e aí fazem com que os jornalistas cubram isso como se fosse um fato. Precisamos descobrir como tornar a redação mais alerta a isso.


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