Folha de S. Paulo


Segregada e com acesso fácil a armas, Chicago vê criminalidade disparar

Emmanuel Fleming, 34, estava atrasado para o culto das 11h de domingo na Igreja Batista da Amizade, no bairro de Austin, em Chicago, no último dia 13. Assim que alcançou a escadaria em frente à igreja, foi alvejado por dois homens em um carro prata, que conseguiram fugir.

Fleming ainda conseguiu gritar para que os três filhos que o acompanhavam, todos com menos de dez anos, procurassem abrigo na igreja.

John J. Kim/Chicago Tribune/Associated Press
Policiais cercam área de centro de convenções de Chicago onde homem foi morto em 20 de agosto
Policiais cercam área de centro de convenções de Chicago onde homem foi morto em 20 de agosto

O amigo Michael Swift, 46, também foi atingido. Os dois morreram ao chegar ao hospital, somando-se a outros seis assassinados só naquele fim de semana em Chicago.

A cidade havia registrado 464 homicídios neste ano até a última segunda (28). Até o meio de junho, o número era maior do que a soma dos assassinatos em Nova York e Los Angeles, cujas populações são de 8,5 milhões e 4 milhões, contra 2,7 milhões de Chicago.

Até julho, os números de 2017 superavam os de 2016, quando houve o "boom" da violência na cidade. Naquele ano, houve um aumento de 57,5% no número de homicídios, sendo 90% deles causados por armas de fogo.

Desde a campanha, o presidente Donald Trump condena o que chama de "carnificina" em Chicago, também como uma forma de atingir seu prefeito, o democrata Rahm Emanuel, primeiro chefe de gabinete do ex-presidente Barack Obama.

Em junho, Trump ordenou o envio de 20 agentes federais para integrarem uma força-tarefa com as polícias de Chicago e do Estado de Illinois. O foco é solucionar casos de homicídio e combater o tráfico de armas.

O Estado permite a venda de armas —e o porte, desde que não seja visível—, mas o comércio ilegal é muito mais representativo. Em 2016, a polícia de Chicago recolheu 6.644 armas.

O fácil acesso a armas de fogo é um dos fatores que explicam o alto índice de assassinatos. Um estudo do Laboratório do Crime da Universidade de Chicago mostrou que os homicídios com arma de fogo aumentaram 61% em 2016, contra 31% dos outros tipos de assassinatos.

No caso de Fleming, a polícia investiga a possível relação da sua morte com um episódio, em 2016, em que ele acabou ferido a bala em uma disputa por uma vaga de estacionamento.

No entanto, para especialistas, a disponibilidade de armas de fogo é só a ponta do iceberg, que tem como base a profunda segregação racial e econômica em Chicago.

Segundo dados da polícia, 79% das vítimas de homicídio na cidade em 2016 eram negras. Nos bairros com maiores índices de violência, nas regiões sul e oeste, mais de 85% da população é negra.

"Se houvesse menos armas nas ruas, menos pessoas seriam feridas, mas as variáveis que geram essa violência —o racismo e a pobreza— ainda levariam muitos para o crime", diz William Sampson, professor da Universidade DePaul, de Chicago.

Segundo o especialista, poucos negros que se formam no ensino médio em Chicago têm as capacidades exigidas para o ensino superior ou o mercado de trabalho. "Além disso, os poucos empregos disponíveis estão fisicamente longe de jovens pobres e negros", diz.

Daniel Pinto/Folhapress
Kenny Doss, 22, é líder do projeto Bridging The Gap, para afastar crianças e jovens da criminalidade
Kenny Doss, 22, é líder do projeto Bridging The Gap, para afastar crianças e jovens da criminalidade

Kenny Doss, 22, que nasceu e cresceu em Englewood, um dos bairros mais violentos de Chicago, se dedica a tentar quebrar o ciclo de violência que aproxima jovens negros das gangues.

Numa quadra de esportes do bairro, ele toca o projeto "Bridging the Gap" (conectar lados separados, em inglês), promovendo o basquete entre crianças e adolescentes.

"Usamos o basquete para ganhar a confiança deles, para que eles tenham um ambiente seguro para crescer. Para estar aqui dentro, as crianças não podem brigar, não podem estar ligadas a gangues, têm que respeitar o outro", diz Doss.

O pastor Reginald Bachus, da igreja batista onde ocorreram os assassinatos, diz que a comunidade deve demorar para superar o trauma. "Este é um bairro barra pesada e estamos sempre atentos ao redor. Só nunca achei que aconteceria aqui", diz.

Para ele, o mais importante é não alimentar o ódio entre os que ficaram. "Não podemos desistir da humanidade. Essa é a mensagem que tento passar para eles."

Editoria de Arte/Folhapress

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