Folha de S. Paulo


Extremistas pró-supremacia branca ganham força no governo de Trump

As tochas empunhadas durante a marcha no campus da Universidade da Virgínia, em Charlottesville, na noite da última sexta (11), acenderam o alerta de que aquele protesto era mais do que um apelo para "Unir a Direita" ou um protesto contra a remoção de uma estátua de um general confederado da Guerra Civil.

A associação com as marchas da Ku Klux Klan do passado se tornou ainda mais concreta conforme seus participantes, que gritavam frases como "vidas brancas importam" e "judeus não vão nos substituir", foram sendo identificados como integrantes de grupos supremacistas brancos e neonazistas.

Mykal McEldowney/The Indianapolis Star/Associated Press
Manifestantes supremacistas brancos seguram tochas em protesto em Charlottesville na sexta (11)
Manifestantes supremacistas brancos seguram tochas em protesto em Charlottesville na sexta (11)

Essas organizações de extrema direita fazem parte dos 917 grupos de ódio monitorados hoje nos Estados Unidos pelo Southern Poverty Law Center (SPLC), ONG tida como referência no tema.

Destes, 130 seguem a KKK e se concentram em Estados onde a segregação racial foi mais intensa, como Alabama, Georgia e Mississippi. Há ainda 99 grupos neonazistas, 100 nacionalistas brancos e 43 neoconfederados. Na conta entram também 193 grupos separatistas negros.

Segundo o SPLC, o número de grupos de ódio cresceu 17% de 2014 a 2016, mas é menor do que o registrado de 2008 e 2013. A quantidade de organizações antimuçulmanos, porém, quase triplicou de 2015 para 2016.

Apesar de ainda não ter dados para este ano, a ONG afirma que a campanha e a vitória de Donald Trump "revigoraram o movimento supremacista de forma inédita".

"Vimos isso no apoio que ele recebeu de David Duke [ex-líder da KKK] em sua campanha, nos crimes de ódio cometidos em seu nome após a eleição, na reunião de supremacistas brancos em Charlottesville que acabou em morte neste fim de semana", diz o SPLC no texto de uma petição na qual pede que o presidente se responsabilize "pelo ódio que desencadeou".

Os últimos dados oficiais do FBI (polícia federal americana) sobre crimes de ódio são de 2015, quando foram registradas 5.850 ações no país motivadas por intolerância contra determinada raça, religião, gênero, orientação sexual ou descendência.

GRUPOS PRESENTES

A marcha que reuniu supremacistas, neonazistas e simpatizantes da direita alternativa ("alt-right", movimento com o qual se identificam nacionalistas brancos, grupos homofóbicos e anti-imigrantes) esteve longe de ser um protesto uniforme, mas alguns grupos puderam ser identificados pelas bandeiras e brasões nos escudos.

O protesto foi organizado por Jason Kessler, que se define como "ativista dos direitos dos brancos" e Richard Spencer, cofundador da "alt-right". Spencer, autointitulado nacionalista branco, criticou quem associou a marcha a supremacistas : "A KKK não tem o monopólio das tochas".

Só que Duke, ex-líder do KKK, não só participou da marcha como celebrou seu "sucesso", afirmando que os supremacistas mostraram sua força além da internet.

O líder dos Cavaleiros Brancos Leais da Ku Klux Klan, Justin Moore, afirmou, nesta terça, que havia integrantes de seu grupo, um dos maiores da KKK, na marcha.

James Field Jr. 20, que matou uma mulher ao avançar com o carro contra os manifestantes contrários à marcha dos supremacistas foi depois identificado, em fotos, entre os membros da organização Vanguard America, classificada pelo SPLC como "racista de direita". O grupo negou que ele seja um integrante.

Para o professor de psicologia Nour Kteily, da Northwestern University, que fez uma pesquisa neste ano com 447 pessoas que se identificavam como alt-right, o grupo tem "visões alinhadas com a de supremacistas brancos", mas sua agenda vai além. "Eles parecem fazer mais oposição a uma ordem social na qual grupos historicamente desfavorecidos estão ganhando aquilo que, na sua visão, são favores injustos."

Editoria de Arte/Folhapress

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