Folha de S. Paulo


Ofensiva iraquiana contra Estado Islâmico em Mossul atinge civis

Mandil Abdulah, 38, chegou aos gritos ao ponto de concentração de refugiados na parte oeste de Mossul, no norte do Iraque. Celular na mão, pedia ajuda a quem acreditava ter qualquer sorte de poder. "Eles ainda estão vivos, falamos com eles agora há pouco, estavam no porão quando a bomba acertou a casa, alguém precisa ir lá para resgatá-los."

O "eles" a que se referia eram o pai, o irmão, a cunhada e os quatro sobrinhos. Abdulah tentava explicar a situação, mas, nervoso, não conseguia. Alguém lhe ofereceu um suco. Alguns goles depois, ele voltou a falar. "Ninguém está morto, falei com eles agora há pouco, a casa caiu, mas eles estão no porão, precisam ir lá tirá-los", contava, esbaforido.

O som das metralhadoras dos helicópteros e o estrondo das bombas disparadas pela aviação norte-americana nos lembravam de que estávamos a poucas centenas de metros do campo de batalha onde os últimos guerrilheiros do Estado Islâmico tentam resistir em Mossul.

OF iraque

A ONU estima que ainda haja cerca e 250 mil pessoas retidas em uma área densamente povoada de pouco menos de 20 km² e completamente cercada pelas forças iraquianas. Acredita-se que até 2.000 combatentes do EI continuem lutando. A falta de alimentos e os ataques aéreos e da artilharia são o maior drama relatado por quem consegue deixar Mossul.

Enquanto Abdulah repetia sua história e o insistente pedido de ajuda, o pequeno grupo que o cercava começou a se desfazer. Alguns seguiram atrás de enlatados que começavam a ser distribuídos, outros buscavam uma sombra à espera dos caminhões que os levariam para os campos de refugiados, que já abrigam quase 450 mil pessoas.

Todos sabiam que ninguém resgataria a família de Abdulah. Ao menos não naquele momento, com tanta resistência dos extremistas. Ele ainda tentou conversar com alguns soldados que fazem a segurança desse entreposto improvisado de refugiados na parte noroeste da cidade, quase às margens do rio Tigre. Sem sucesso. Logo, ele também se cansou. "Eles estão lá, estão vivos, falei com meu pai agora há pouco", dizia, já sem o mesmo entusiasmo de minutos antes.

Apesar da tragédia pessoal, Mandil Abdulah teve sorte ao conseguir fugir das áreas controladas pelo EI em Mossul neste momento.

Entrincheirados nas ruelas da parte mais antiga da cidade e nos bairros vizinhos, os extremistas cobram um preço alto das forças do Iraque nesta que é, sem dúvida, a última fase da ofensiva que começou há mais de seis meses e deixou milhares de mortos.

"Não há mais nada lá dentro, só morte e destruição", conta Amel Younis, 37, que conseguiu fugir com a filha de apenas 20 dias. Sua casa foi atingida pelos ataques aéreos, e a bebê ainda está com o rosto coberto de poeira.

Yan Boechat/Folhapress
Civis chegam a entreposto de recolhimento de refugiados na parte Leste de Mosul, onde ha distribuição de água e comida. O local esta a menos de 2 km da frente de batalha e tem recebido uma média de 5.000 pessoas diariamente
Civis chegam a entreposto de recolhimento de refugiados na parte Leste de Mosul, onde ha distribuição de água e comida. O local esta a menos de 2 km da frente de batalha e tem recebido uma média de 5.000 pessoas diariamente

Sem médicos, enfermeiros ou qualquer tipo de assistência, ela fez o parto em casa, com a ajuda das vizinhas. Tudo correu bem, mas sua filha está doente. "Não sabemos o que é. Ela não mama direito e está assim, não chora, não faz nenhum som, passa o dia quieta", diz ela, mostrando a menina, suja e apática.

Segundo os moradores, os bombardeios ocorrem de forma indiscriminada, e a escassez crônica de comida tem sido a causa de muitas mortes. "Só na minha rua acho que ficamos sabendo de ao menos umas 25 pessoas que não sobreviveram porque estavam sem comer, gente que se feriu ou estava doente e não resistiu", diz Aila Hasam, 42.

"Nos últimos 15 dias, tudo o que comemos foram pedaços de pão que cozinhamos com água e açúcar, é o que muita gente está comendo agora", afirma, enquanto comia biscoitos e se deleitava com um refresco adocicado de sabor de laranja.

Não existem números oficiais de civis mortos nesta batalha para a retomada de Mossul. Apesar de o governo iraquiano dizer que a população é sua maior preocupação, a reportagem da Folha assistiu a pelo menos 20 ataques aéreos e de artilharia em bairros densamente povoados na manhã do último dia 7.

O Iraq Body Count, uma ONG que se propõe a contabilizar o número de vítimas civis na Guerra do Iraque, estima que apenas entre abril e a primeira semana de maio quase 900 pessoas foram mortas por ataques aéreos e pelos disparos da artilharia.

Os números são baseados em testemunhos que a ONG obtém em campo e, não raro, são bastante imprecisos.

PRÓXIMO PASSO

A situação mais crítica desta reta final ainda está por vir. As forças iraquianas ainda estão nas franjas da chamada cidade antiga, onde está a mesquita de Al Nuri, local em que o líder do Estado Islâmico, Abu Bakr Al Baghdadi, declarou a criação do califado, em 2014.

Ali há uma grande concentração de casas, e o terreno elevado é favorável à defesa. Suas ruas são tão estreitas que nem mesmo blindados pequenos conseguem entrar. Os soldados terão que invadir a área a pé, de maneira extremamente vulnerável aos atiradores de elite e aos homens bomba. A outra opção é bombardear tudo, a ponto de deixar poucas edificações de pé. Neste momento, esta parece ser a estratégia.


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