Folha de S. Paulo


Emissora russa RT é agências de notícias ou propaganda do Kremlin?

A redação e os estúdios em Londres da RT, o canal de televisão e site antes conhecido como Russia Today (Rússia Hoje), são ultramodernos e espaçosos, com vistas espetaculares do 16º andar para o rio Tâmisa e a roda gigante London Eye.

E o chefe da sucursal em Londres, Nikolay Bogachikhin, brinca: "Nós temos vista para o MI5 e estamos perto do MI6" –as agências de inteligência doméstica e internacional do Reino Unido.

Alexei Druzhinin - 11.jan.2017/Sputnik/Kremlin/Associated Press
Russian President Vladimir Putin attends a meeting with Russian prosecutors in Moscow, Russia, Wednesday, Jan. 11, 2017. (Alexei Druzhinin/Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP) ORG XMIT: MOSB101
O presidente da Rússia, Vladimir Putin

Bogachikhin estava zombando da acusação dos governos ocidentais, americano e europeus, de que a RT é um agente da política do Kremlin e um instrumento usado diretamente pelo presidente Vladimir Putin para minar as democracias ocidentais –interferindo na última eleição presidencial nos EUA e, segundo autoridades de segurança europeias, tentando fazer o mesmo na Holanda, na França e na Alemanha, que terão eleições neste ano.

Mas o Ocidente não está rindo. Enquanto a Rússia insiste que a RT é apenas mais uma rede global como a BBC ou a France 24, embora oferecendo "visões alternativas" à mídia noticiosa dominada pelo Ocidente, muitos países ocidentais veem a RT como o coração muito bem produzido de uma campanha de desinformação ampla e muitas vezes secreta, destinada a semear dúvidas sobre as instituições democráticas e desestabilizar o Ocidente.

A atenção ocidental se concentrou na RT em janeiro, quando o governo Barack Obama e órgãos de inteligência dos EUA avaliaram com "alta confiabilidade" que Putin havia ordenado uma campanha para "minar a fé pública no processo democrático dos EUA", desacreditar Hillary Clinton por meio de invasões dos e-mails internos do Partido Democrata e oferecer apoio a Donald Trump, que, quando candidato, disse que queria melhorar as relações com a Rússia.

Assistir à RT pode ser uma experiência estonteante. Notícias quentes e gráficos elaborados se misturam a entrevistas com todo tipo de pessoas: conhecidas e obscuras, de esquerda e de direita. Elas incluem favoritos como Julian Assange, fundador do WikiLeaks, e Noam Chomsky, crítico liberal das políticas ocidentais; vozes aleatórias como a da atriz Pamela Anderson; e malucos que pensam que Washington é a fonte de todos os males do mundo.

Mas se há um caráter que unifica a RT é um profundo ceticismo das narrativas de mundo ocidentais e americanas e uma defesa fundamental da Rússia e de Putin.

Os analistas estão muito divididos sobre a influência da RT. Indicando seu número minúsculo de audiência, muitos advertem para não se exagerar sobre seus efeitos. Mas concentrar-se na audiência pode não ver o ponto principal, diz Peter Pomerantsev, que escreveu um livro há três anos descrevendo o uso da televisão para propaganda na Rússia.

"A audiência não é o principal para eles", disse ele. "São as campanhas por influência financeira, política e midiática."

A RT e a Sputnik projetam essas campanhas, ajudando a criar o material para milhares de propagadores de notícias falsas e fornecendo mais um canal para material roubado que possa servir aos interesses russos, segundo Ben Nimmo, que estuda a RT para o Conselho Atlântico.

Bogachikhin e Anna Belkina, diretora de comunicações da RT em Moscou, insistem que é absurdo juntar o esforço da RT para fornecer "opiniões alternativas à mídia da corrente dominante" com o fenômeno das notícias falsas e da propaganda nas redes sociais.

"Há uma histeria sobre a RT", disse Belkina. "A RT passa a ser um símbolo de tudo."

Por exemplo, diz ela, enquanto a RT aparecia pesadamente no relatório da inteligência americana, em um anexo de sete páginas de um relatório de 13 escrito há mais de quatro anos, em dezembro de 2012, era apenas um fato revelado em uma nota de rodapé na página 6.

Ela nega redondamente qualquer sugestão de que a RT busque interferir nas eleições democráticas em qualquer lugar. "Com o tipo de escrutínio que sofremos, nós verificamos tudo."

Para a RT e seu público, o canal é uma alternativa revigorante ao que eles consideram o elitismo e o neoliberalismo complacentes do Ocidente, representando o que o chanceler da Rússia, Sergey Lavrov, chamou recentemente de "ordem mundial pós-Ocidente".

Com seu slogan "Questione Mais", criado por uma agência de publicidade ocidental, a RT tenta ocupar um nicho, disse Belkina. "Queremos completar a imagem, mais que entrar na câmara de eco do noticiário da corrente dominante; é assim que encontramos uma audiência."

Afshin Rattansi, que apresenta um programa de entrevistas três vezes por semana chamado "Going Underground" (Indo para o subterrâneo), chegou à RT em 2013, depois de trabalhar na BBC, CNN, Bloomberg, al-Jazeera e Press TV do Irã.

"Diferentemente da BBC e da CNN, nunca me disseram o que eu devia dizer na RT", disse ele. Houve dois casos de apresentadores da RT que saíram porque disseram algo que contrariou as diretrizes do Kremlin, especialmente sobre a Ucrânia, mas não em Londres, segundo Rattansi.

Michael McFaul, um professor de Stanford que foi embaixador dos EUA na Rússia durante a era Obama, disse que a RT não deve ser levada na brincadeira. "Há uma demanda em alguns países por essa visão alternativa, um apetite, e nós americanos arrogantes não devemos pensar que ninguém se importa."

Mas há também uma visão consideravelmente mais sombria. Para os críticos, a RT e a Sputnik são simplesmente instrumentos de uma sofisticada máquina de propaganda, criada pelo Kremlin para promover sua política externa, defender sua agressão na Ucrânia e minar a confiança na democracia, na Otan (aliança militar ocidental) e no mundo como o conhecemos.

Robert Pszczel, que dirigiu o escritório de informação da Otan em Moscou e observa a Rússia e os países dos Bálcãs ocidentais para a Otan, disse que a RT e a Sputnik não se destinam ao consumo interno, ao contrário da BBC ou da CNN. Com o tempo, disse ele, "tem mais a ver com poder duro e desinformação".

O Kremlin não se importa "se você concorda com a política russa ou pensa que Putin é maravilhoso, desde que faça o trabalho –você começa a ter dúvidas, e de dez pontos revoltantes você aborda um ou dois", disse ele. "Um pouco de lama sempre gruda."

Stefan Meister, que estuda a Rússia e a Europa Central para o Conselho sobre Relações Exteriores da Alemanha, concordou que "não devemos superestimar a RT. O principal sucesso dos russos é a ligação com as redes sociais por meio de robôs e uma rede de fontes diferentes".

Essa rede, segundo ele, é "cada vez mais bem organizada, com mais ligações estratégicas e explícitas entre fontes e atores –a mídia doméstica russa, fábricas de trolls, a RT, pessoas nas redes sociais e talvez também os serviços de segurança".

"As sociedades abertas são muito vulneráveis", disse Meister, "e é mais barato que comprar um novo foguete."

Traduzido por LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES


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