Folha de S. Paulo


Esquecida, revolução que derrubou monarquia russa completa 100 anos

"A revolução de 1917? Claro que estudamos isso!", responde, algo surpresa pela pergunta, a tradutora russa Alina Pogudina, 30. "Ah, não, verdade. Esta é a outra, a esquecida", completa, informada de que o objeto da conversa é a Revolução de Fevereiro, e não a de Outubro, em que Vladimir Lênin instaurou o comunismo na Rússia.

Na próxima quarta-feira (8) será comemorado o centenário da primeira das duas revoluções. Só que a insurreição de fevereiro, pelo calendário vigente então, mal sobrevive às brumas do tempo.

Moradora de Khabarovsk (Sibéria), Alina nasceu nos estertores da União Soviética, o Estado formado em 1922 após a sangrenta guerra civil que teve sua origem naquele fevereiro de 1917. Na escola, o tema pouco era abordado.

Theo Lamar/Folhapress

"A geração mais nova ignora mesmo. Para nós que crescemos nos tempos soviéticos, contudo, a revolução era um prelúdio em que Lênin fazia os preparativos para os eventos de outubro", conta o cientista político moscovita Konstantin Frolov, 45.

Este parece ser o ponto principal da história de 1917: ela acabou sendo contada pelos vencedores de outubro, não pelos de fevereiro.

O efeito é duradouro. Pesquisa do Centro Levada, divulgada em 28 de fevereiro, mostra que 45% dos russos repetem o que Frolov aprendeu na escola: a revolução só serviu para abrir caminho a Lênin. Para 35%, "é difícil dizer" o que ela significou.

No Ocidente, a historiografia conservadora na Guerra Fria dava peso à revolta de fevereiro, por ter tido a queda da monarquia de 300 anos da casa dos Romanov e o estabelecimento de um governo liberal como resultados.

Essa leitura foi sofisticada depois, com o reconhecimento da influência estrutural dos bolcheviques de Lênin (1870-1924), ainda que a abertura dos arquivos soviéticos após o fim da Guerra Fria tenha enterrado a idealização romântica do líder feita por intelectuais de esquerda arrependidos por terem apoiado a ditadura stalinista que sucedeu sua morte.

Lênin foi, afinal, um déspota cruel. Mas sua visão radical de revolução estava mais impregnada nas estruturas de base de trabalhadores e de soldados do que a versão anticomunista admitiria, ainda que os bolcheviques fossem secundários quando a revolta explodiu.

Naquele momento, a Rússia penava derrota atrás de derrota para a Alemanha e seus aliados na Primeira Guerra Mundial (1914-18). Havia fome e insatisfação com o regime do czar Nicolau 2º (1868-1918) desde uma insurreição fracassada em 1905.

Na maior fábrica da então capital Petrogrado, a São Petersburgo cujo nome havia sido russificado por causa da guerra, grevistas se uniram a trabalhadoras marchando no Dia da Mulher. O movimento tornou-se irreversível, teve adesão de militares e, sete dias depois, o czar abdicou –sendo executado por comunistas no ano seguinte.

Alexander Zemlianichenko - 19.fev.2017/Associated Press
Cirilo, o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, celebra a homenagem às vítimas da Revolução de Fevereiro
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"Foi uma revolução antimonárquica e democrática que liberou a maior parte das forças sociais. Ela minou o Estado e permitiu que os bolcheviques tomassem o poder com uma força relativamente pequena, mas organizada e militante", afirma o britânico Orlando Figes, 57, um dos principais historiadores dedicados à Rússia.

O governo provisório tinha maioria liberal, e foi integrado por socialistas moderados que queriam reformas progressivas e manter a Rússia na guerra, entre outras coisas para continuar a aliança com França e Reino Unido.

A maioria da esquerda disputou o poder formando o Soviete (Conselho) de Petrogrado. Os chamados mencheviques, rivais dos bolcheviques, tinham mais espaço no fórum e acreditavam na revolução em dois tempos, com uma etapa capitalista abrindo caminho ao socialismo.

Lênin estava exilado na Suíça, voltou de trem a Petrogrado pelas mãos da Alemanha, a quem prometera sair da guerra –o que de fato fez em 1918. O conflito seguia minando o instável governo provisório, por fim liderado pelo socialista moderado Alexander Kerênski (1881-1970).

Em outubro, novembro no calendário atual, as divisões de poder, a pressão popular pelo fim da guerra e uma tentativa fracassada da aristocracia militar de tomar o poder deram condições para que os bolcheviques dessem um golpe político interno.

Foi praticamente pacífico, com apoio da soldadesca em Petrogrado, mas também o prelúdio da guerra que matou 1,5 milhão de combatentes e talvez 8 milhões de civis.

O embate entre "vermelhos", bolcheviques e outras facções radicais, e "brancos", a ala mais à direita do governo provisório e aliados diversos, marcou a Rússia.

"Uns veem a revolução como o começo de uma grande civilização, outros como uma catástrofe. O país está lutando hoje um tipo de guerra civil ideológica entre os descendentes de 'vermelhos' e de 'brancos'", diz Figes.

Para ele, o fato de que as revoluções não são parte do calendário oficial de comemorações na Rússia de Vladimir Putin mostra a dificuldade em lidar com a questão.

"Putin talvez tenha se entregado quando trouxe de volta à Rússia os restos do líder 'branco' Anton Denikin (1872-1947). Mas ele não quer muita conversa sobre revolução porque teme uma."

Não só ele. Ao longo dos quase 70 anos da União Soviética, não se viram monumentos a fevereiro de 1917 espalhados pelo país. Mesmo o existente no Campo de Marte, em São Petersburgo, foi absorvido por um maior de estética e narrativa comunistas, tornando indiferenciável a lembrança celebrada ali.


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