Folha de S. Paulo


Ex-funcionários retratam instituição de ensino de Trump como fraude

Em depoimentos francos revelados na terça (31), ex-administradores da Universidade Trump, a escola com fins lucrativos fundada por Donald Trump, retratam a instituição como uma empresa desprovida de escrúpulos, que usava táticas de vendas de alta pressão, empregava instrutores não qualificados, fazia propaganda sem fundamentos e explorava estudantes vulneráveis que se dispunham a pagar dezenas de milhares de dólares pelos ensinamentos de Trump.

Um gerente de vendas da Universidade Trump, Ronald Schnackenberg, contou que foi repreendido por não ter exercido pressão suficiente sobre um casal em dificuldades financeiras para levá-lo a matricular-se numa aula de vendas imobiliárias, apesar de o gerente ter concluído que isso colocaria o futuro econômico do casal em risco.

Schnackenberg contou que viu com repulsa outros vendedores da universidade persuadirem o casal a matricular-se no curso mesmo assim.

Luis Alvarez -6.mar.2016/Associated Press
Candidato republicano Donald Trump dirige carro de golfe durante torneio em Doral
Candidato republicano Donald Trump dirige carro de golfe durante torneio em Doral

"Acho que a Universidade Trump era um esquema fraudulento", escreveu Schnackenberg em seu depoimento, "que visava idosos e pessoas pouco instruídas, com o objetivo de ficar com o dinheiro deles".

Para Trump, cuja campanha presidencial se baseia em sua reputação como empresário, os documentos, cuja divulgação acaba de ser permitida, oferecem uma visão pouco lisonjeira de sua carreira nos últimos dez anos, quando ele passou da construção de arranha-céus para empreendimentos que aproveitavam seu nome para vender tudo, desde água e bifes até gravatas e ensino.

A divulgação dos documentos, feita na terça sob ordem judicial, foi a novidade mais recente na ação judicial federal aberta na Califórnia por antigos alunos insatisfeitos da Universidade Trump. O processo vem atrapalhando o empresário desde 2010 e, se ele for eleito presidente, pode segui-lo até a Casa Branca.

Trump fundou a universidade em 2005 e era dono de 93% da empresa, hoje fechada. Desde o começo, ele atuou como o principal promotor da escola, em vez de seu administrador, promovendo-a como ferramenta de empoderamento financeiro que possibilitaria a milhares de americanos comuns melhorar suas vidas.

Segundo a transcrição de um vídeo na web, ele disse que a universidade "vai lhe dar um ensino melhor que o da melhor escola de administração de empresas".

Entre os documentos levados a público na terça estão manuais internos para os funcionários da universidade, orientando-os a incentivar clientes com pouco dinheiro a pagar pelas mensalidades com seus cartões de crédito.

"Ensinamos a técnica de usar o OPM (Other People's Money —o dinheiro de outras pessoas)", explicavam as instruções internas para o pessoal de vendas.

Os documentos pressionavam os funcionários a explorar as emoções dos potenciais clientes. "Diga a eles que vocês encontraram uma resposta aos problemas deles", diziam instruções confidenciais ao pessoal de vendas da instituição.

Os documentos mais marcantes foram depoimentos escritos de ex-funcionários da Universidade Trump que disseram ter-se decepcionado com as táticas e a cultura da universidade.

Corrine Sommer, que era gerente de eventos, contou como seus colegas incentivavam os alunos a adquirirem o maior número possível de cartões de crédito, para pagarem por cursos que estavam fora do alcance financeiro de muitos deles.

"Não tem problema, estoure seu cartão de crédito", diziam, segundo Sommer.

Jason Nicholas, que foi executivo de vendas na Universidade Trump, recordou um argumento enganoso usado para atrair estudantes: a promessa de que Trump estaria "ativamente envolvido" no ensino deles.

"Não era verdade", disse Nicholas em seu depoimento, lembrando que Trump praticamente não tinha envolvimento algum nas aulas. Nicholas concluiu que a Universidade Trump era "uma fachada, uma mentira total".

Advogados de Trump contestaram essas caracterizações, dizendo que os depoimentos dos ex-funcionários da universidade foram "completamente desacreditados".

Como já fez no passado, Trump, falando por meio de representantes, argumentou que as queixas vieram de um número restrito de antigos estudantes da universidade e que a imensa maioria dos ex-alunos fez resenhas positivas da experiência que tiveram.

"A Universidade Trump quer usar essas evidências, além de muitas outras, para vencer quando o processo for apresentado a um júri", disse Hope Hicks, uma porta-voz de Trump.

Os documentos do tribunal mostram o papel que Trump e sua reputação exerceram na promoção das aulas de vendas imobiliárias para milhares de alunos.

Materiais de marketing com a assinatura dele incentivavam potenciais alunos a aproveitar uma queda no mercado imobiliário para auferir lucros rápidos.

Trump fazia o tipo de oferta que assessores financeiros sempre aconselharam os consumidores a enxergar com desconfiança. "Que tal blindar seu futuro financeiro contra os altos e baixos do mercado?", perguntava Trump em um folheto.

Trump tentou impedir a divulgação dos documentos, anteriormente mantidos em sigilo. Em aparente tentativa de desacreditar o juiz responsável pelo processo, Gonzalo P. Curiel, Trump disse que ele é enviesado, que "odeia Donald Trump", e procurou chamar a atenção para a origem étnica do juiz —"acreditamos que seja mexicana", disse. (Curiel nasceu no Indiana e tem ascendência mexicana.)

Na sexta (27), em resposta a uma moção registrada pelo "Washington Post", Curiel ordenou a liberação dos documentos. Alguns dos documentos levados a público já tinham sido divulgados publicamente em função de outros processos.

O manual interno para os funcionários da Universidade Trump inclui instruções detalhadas sobre como promover as aulas, mesmo a consumidores céticos e relutantes, aproveitando as necessidades psicológicas dos consumidores.

É claro que o próprio Trump e a promessa de seu envolvimento com a escola eram a maior atração de todas. Nos documentos divulgados, os instrutores se descreveram como tendo sido "escolhidos a dedo" por Trump. Mas, em deposição ligada ao processo, Trump admitiu que não escolheu os instrutores.

Nem todos os documentos divulgados na terça foram críticos. Muitos ex-alunos disseram que os cursos lhes deram exatamente o que eles previam.

"A Universidade Trump me deixou mais preparado para encarar o 'mundo real' dos investimentos imobiliários", escreveu David Wright Jr., que se matriculou em um curso de seis meses. "Aprendemos muito com a Universidade Trump e alcançamos algum sucesso", escreveu outra aluna, Kissy Gordon.

Ex-funcionários, como Corinne Sommer, revelaram uma visão mais negativa da escola. Em seu depoimento, ela disse que ficou espantada com as qualificações de alguns dos professores da universidade.

Ela recordou que um membro da equipe de vendas da universidade, que antes disso tinha sido vendedor de joias, foi promovido a professor na escola. "Ele não tinha nenhuma experiência no setor imobiliário", disse.

Sommer acrescentou que muitos dos professores possuíam a qualidade que a escola parecia valorizar acima de tudo: "Eram hábeis em fazer vendas com alta pressão sobre os clientes".

Tradução de CLARA ALLAIN


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