Folha de S. Paulo


Jogo de beisebol em Cuba foi bom evento de relações públicas

Conforme esperado, o clima amistoso marcou a partida de beisebol entre a seleção cubana e o time norte-americano Tampa Bay Rays em Havana, evento programado na agenda do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para encerrar sua histórica visita de três dias a Cuba.

Uma alta dose de simbolismo tomou conta do Estádio Latino-Americano, que ficou lotado e reuniu 55 mil pessoas. Atos foram previstos em busca de fortalecer a imagem de retomada das relações diplomáticas entre os países, iniciada no final de 2014 depois de uma cisão de mais de cinco décadas.

Rebecca Blackwell/Associated Press
Barack Obama e Raúl Castro acenam para a plateia no jogo de beisebol no Estádio Latino-Americano
Barack Obama e Raúl Castro acenam para a plateia no jogo de beisebol no Estádio Latino-Americano

Cena 1: treinador e jogadores do time da Flórida entram no campo de mãos dadas com crianças cubanas, que seguram uma flor e uma bandeirinha do país caribenho.

Cena 2: o locutor anuncia, em espanhol, os nomes dos jogadores titulares e suas respectivas posições; um outro locutor traduz a posição dos atletas para o inglês.

Cena 3: os atletas, ao término do hino americano, carregam no colo as meninas e meninos cubanos que os acompanham. Dão-lhes abraços, acenam para as câmeras.

Cena 4 (parte um): o primeiro jogador do Tampa Bay designado para rebater é o único cubano do time. Ele vai para a posição e, taco nas mãos, posiciona-se. Nascido em Havana, Dayron Varona, 28, desertou em 2013, rumo ao Haiti, de onde migrou para os EUA. Ele é o primeiro jogador de beisebol desertor a voltar a Cuba e participar de um jogo —emocionou-se no desembarque na ilha ao ver parentes com os quais não se encontrava havia três anos.

Cena 4 (parte dois): Em sua rebatida, Varona não tem sucesso. A bola vai para o alto e para a frente, mas sem força suficiente para chegar à torcida (o que renderia um "home run" e, nesse caso, um ponto). Um defensor a pega antes que ela caia no chão, eliminando-o daquela rodada. Mesmo assim, é aplaudido.

Cena 5: Chris Archer, uma das estrelas dos Rays, dá entrevista ao lado do campo, com a partida em andamento (algo, se não inédito, incomum), e tece elogios aos cubanos e aos torcedores de beisebol do país: "São os mais apaixonados do mundo".

Essa era a primeira vez em 17 anos que uma equipe norte-americana ia a Cuba para uma partida de beisebol.

Em março de 1999, após intensas negociações, o Baltimore Orioles disputou um jogo contra a seleção cubana no mesmo estádio. Com Fidel Castro na plateia, os americanos venceram por 3 a 2. Nesta terça-feira (22), Fidel não compareceu. Quem se sentou ao lado de Obama foi seu irmão, atual comandante do país, Raúl Castro.

BOM HUMOR

Com o embargo econômico dos EUA a Cuba ainda de pé, um dos desafios de Obama, que está em seu último ano de mandato, será encontrar uma forma de os cubanos atuarem na liga profissional americana sem precisarem desertar. Sendo o beisebol uma paixão dos dois países, será algo a negociar com as autoridades da ilha.

Acompanhado da primeira-dama, Michelle, e das duas filhas, Obama chegou bem-humorado ao Latino-Americano, às 13h47 no horário local (14h47 de Brasília), de camisa branca e óculos escuros. Foi fotografado por pessoas com smartphones enquanto se dirigia a seu lugar.

Ele esteve empolgado durante a partida e vibrou quando saiu o primeiro ponto do jogo, do Tampa Bay, na segunda das nove rodadas em que os times se alternam para rebater a bola. Raúl, também bastante animado, aplaudiu, e não parecia se importar com o placar adverso.

TERRORISMO

Depois dessa rodada, Obama sentou-se com uma equipe da TV que exibiu o jogo e deu uma entrevista. Reforçou que o mundo precisa "se unir" contra o terrorismo, ao comentar os ataques em Bruxelas, e disse que não pensou em cancelar sua ida à partida devido ao ocorrido na Bélgica —explicou que um dos objetivos dos terroristas é justamente fazer com que as pessoas alterem suas rotinas.

Rodrigo Londoño, conhecido como Timoleón Jiménez ou Timochenko, comandante das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), considerada pelos EUA uma organização terrorista, estava no estádio para assistir ao jogo.

YAMIL lAGE/AFP
O líder das Farc, Rodrigo Londoño, o Timoleón Jiménez, vê o jogo de beisebol da arquibancada
O líder das Farc, Rodrigo Londoño, o Timoleón Jiménez, vê o jogo de beisebol da arquibancada

Depois da entrevista, Obama deixou o estádio. Partiu para a Argentina, onde fará uma viagem de dois dias.

O lance que motivou vibração de Obama mostrou-se uma exceção na partida, que não teve grande emoção. Do lado dos visitantes, apenas mais dois lances são dignos de menção: a rebatida em que marcaram o segundo e o terceiro ponto e o lance em que somaram mais um ponto.

Do lado dos anfitriões, um ataque ineficiente até a última rodada, quando ocorreu o lance tão esperado e que deixou a torcida de pé: uma rebatida de bola longe o suficiente para um "home run".

Resultado final: seleção de Cuba 1 x 4 Tampa Bay Rays. Apesar da derrota, não houve sinal de frustração geral dos cubanos. Era um evento de relações públicas —e nisso foi bem-sucedido.


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