Folha de S. Paulo


análise

História da civilização definha em Museu Nacional do Iraque

Saqueado e interditado depois que as tropas americanas capturaram Bagdá, há 12 anos, o Museu Nacional do Iraque já reabriu oficialmente as suas portas, numa resposta ao vandalismo da facção terrorista Estado Islâmico aos tesouros antigos da cidade de Mossul.

A mensagem: Bagdá e seu governo pertencem ao mundo civilizado, não o Estado Islâmico.

As autoridades americanas inclusive devolveram alguns objetos recuperados, numa demonstração de solidariedade.

Mas as relações públicas são uma coisa, e o cotidiano na sofrida capital iraquiana outra. O museu reaberto parece praticamente igual ao que era na época de Saddam Hussein. Dezenas de milhões de dólares chegaram do exterior para serem gastos na reforma do museu, mas ninguém sabe aonde essa verba foi parar.

Numa manhã recente, o lugar estava quase vazio. O museu -uma cápsula do tempo com rótulos amarelados e paredes rachadas- apresenta um relato sobre sumérios e acádios, sobre Nabucodonosor, sobre Hulagu Khan, que destruiu a cidade em 1258, e sobre Tamerlão, o guerreiro mongol que voltou a saquear tudo um século e meio depois.

Mas o museu também fala sobre o Iraque de hoje: sua corrupção, as fortunas dilapidadas e o tênue fio desse legado, do qual depende a própria noção de um país unificado.

Os moradores de Bagdá se apressam em observar que, a despeito de suas seitas e tribos, os iraquianos partilham de uma vida de miséria e morte. Mas muitos também se sentem herdeiros de algo que o museu consagra: o Iraque como nascedouro da civilização, a origem da escrita e do conceito de Estado.

Isso faz com que o museu, mais do que uma mera coleção de artefatos, seja uma atração turística sem turistas. A destruição causada pelo Estado Islâmico em Mossul, que horrorizou incontáveis iraquianos, não só xiitas e curdos como também sunitas, deixou isso mais claro. Provou que objetos antigos, como os desse museu, ainda guardam um poderoso significado simbólico e espiritual.

Em um bar, o poeta Mahfodh Dawood, 74, ex-funcionário do Ministério da Cultura, disse que "neste momento, praticamente o único significado de ser iraquiano é que você é responsável pela civilização que estava aqui e remonta a milênios, nada mais".

Seu amigo Muyaed Albassam, 65, afirmou: "Quando os iraquianos veem a vida no resto do mundo, nos sentimos pobres, sem valor. Somos o número um apenas em corrupção. Mas temos esse passado como a origem da civilização".

Vários jovens se reuniam em outro banco, no outro lado do estabelecimento, fumando narguilé. "É a nossa identidade, a nossa herança, sim", disse Abbas Jabir, 25, "mas desde 2003 surgiu uma geração que não foi educada nessa história, nessa ideia de orgulho nacional, e assim ficou mais suscetível ao Estado Islâmico".

O museu está fechado aos finais de semana, quando a maioria dos iraquianos poderia visitá-lo. Sua agenda é refém dos orçamentos do setor público, disse o diretor, Ahmed Kamel Mohammed, encolhendo os ombros.

Ele admitiu que até mesmo crianças em idade escolar precisam pagar entrada -apesar das dificuldades de muitas famílias para conseguir uma renda que garanta o básico de alimentação e moradia. "O que nós precisamos é de paz", disse o diretor. "Paz significa segurança, visitantes, dinheiro, orgulho."

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Em um bar próximo, Sara Mohamed, 28, natural de Mossul, disse ter o coração partido por causa da barbárie do Estado Islâmico. Sua amiga Tamara Saad, 27, disse: "Nós nos sentimos orgulhosas da nossa cultura antiga, da mesma maneira como você tem algo na sua casa em que não presta muita atenção até que alguém entra na sua casa e a destrói."

Jaffar Darwesh, que publica uma revista sobre o patrimônio cultural iraquiano, falou sobre a necessidade de inspirar uma nova geração a sentir orgulho e pertencimento.

"Você não pode esperar que os iraquianos protejam museus e objetos antigos 'in loco' quando estão desesperados para protegerem a si mesmos", disse.

"Mas isso não deve nos eximir da preocupação com o nosso passado. A política não foi capaz de criar uma identidade nacional. A religião fracassou. As seitas claramente falharam. Então, quem somos nós? Essa é a pergunta. Eu acho que a história é parte da resposta, um terreno comum."


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