Folha de S. Paulo


Brasil está em recessão desde o 2º trimestre de 2014, diz comitê da FGV

O Brasil enfrenta uma recessão desde o segundo trimestre do ano passado, segundo cálculo do Comitê de Ciclos Econômicos, o Codace, grupo criado em 2008 pela Fundação Getulio Vargas para determinar os períodos de expansão e contração da economia do país.

De acordo com o comitê, a atividade econômica está em queda, portanto, há pelo menos quatro trimestres.

Não há previsão sobre quanto tempo a recessão atual deve durar. Mas já se trata do ciclo recessivo mais duradouro vivido pelo país desde o início de 1999, quando a economia saiu de um período de contração econômica de cinco trimestres (veja quadro acima).

UM ANO DE RECESSÃO

"Todos os indicadores mostram que ainda estamos vivendo o processo recessivo e que devemos enfrentá-lo até pelo menos o final do ano", afirma Paulo Picchetti, professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV e um dos sete membros do Comitê de Ciclos Econômicos.

Na estimativa de instituições financeiras e analistas de mercado, o país fechará 2015 com retração de 1,8% no PIB e seguirá em recessão no primeiro trimestre de 2016.

METODOLOGIA

O comportamento do PIB é o principal sinalizador da atividade econômica. Quando ele recua por dois trimestres seguidos, muitos economistas dizem que um país entrou em "recessão técnica".

No entanto, o Codace analisa um vasto número de indicadores para definir os períodos de recessão e expansão dos ciclos econômicos. O desempenho do PIB é somente um deles, embora tenha peso expressivo por ser o mais abrangente.

O comitê leva também em consideração dados como a atividade industrial, a taxa de desemprego, as vendas no comércio varejista.

Segundo o grupo, o método usado assemelha-se ao adotado pelo NBER, instituto privado dos EUA que é referência em cálculos sobre ciclos econômicos.

Pelo modelo do Codace, o Brasil viveu nove períodos de recessão desde o primeiro trimestre de 1981, início da série histórica.

A análise da série mostra que a duração dos períodos de recessão vinha diminuindo, enquanto a dos ciclo de bonança econômica expandia-se, uma consequência da estabilização monetária e financeira permitida pelo Plano Real e do cenário internacional mais favorável a partir do início dos anos 2000.

MAROLINHA

Antes da crise econômica mundial, que eclodiu nos últimos meses de 2008, o país havia experimentado 21 trimestres consecutivos de expansão —um recorde na série a construída pelo grupo.

Do segundo trimestre de 2009, quando o país saiu da crise, até o primeiro trimestre de 2014, foram outros 20 trimestres seguidos de economia em crescimento.

Para Picchetti, o ciclo recessivo atual é reflexo das medidas tomadas pelo Brasil com o objetivo de acelerar a recuperação da sua última crise.

Na ocasião, o governo incentivou o crédito e o consumo das famílias para estimular a demanda doméstica. Para o ex-presidente Lula, enquanto o mundo enfrentava uma tsunami, o Brasil lidava com uma "marolinha".

"Nessa de sermos os primeiros a sair da crise, aparentemente você criou uma série de desequilíbrios, que estão cobrando a conta agora. Saímos pelo lado da demanda tanto do lado de política monetária quanto de política fiscal. E os desarranjos basicamente se mostraram incontornáveis após as eleições presidenciais [do ano passado]", diz Picchetti.

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Quem faz o cálculo?
O Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos) determina cronologias para os ciclos econômicos do país

Como funciona o cálculo?
Os economistas determinam os ciclos pela avaliação de uma série de indicadores como PIB, taxa de desemprego e produção industrial


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