Folha de S. Paulo


Em campo, a Copa do Mundo traz um instantâneo da migração global

As comunidades migrantes estão fortemente presentes nas 32 seleções da Copa, mas a homogeneidade racial reina entre técnicos e torcedores

A composição étnica das 32 seleções nacionais participantes da Copa do Mundo reflete as camadas sedimentares de migração global nos últimos 500 anos. A destruição colonial europeia dos habitantes indígenas das Américas resulta nas seleções quase inteiramente europeias do Chile, da Argentina e do México. A Austrália pode ser vista como versão oceânica do mesmo fenômeno.

Em boa parte do hemisfério, a conquista foi seguida pela importação maciça de mão-de-obra escrava africana, fato que explica o misto afro-europeu do Brasil, Equador, Honduras, Costa Rica, Colômbia, Uruguai e Estados Unidos, embora, no caso dos EUA, os latinos formem uma categoria étnica separada. Em todo o continente, o futebol ainda é uma área de mobilidade social para jovens pobres e imigrantes. No caso do Equador, os afro-equatorianos compõem apenas 6% da população, mas quase a seleção nacional de futebol inteira.

Felipe Dana - 26.jun.2014/Associated Press
Jogadores belgas comemoram diante do público após jogo contra a Coreia do Sul em São Paulo
Jogadores belgas comemoram diante do público após jogo contra a Coreia do Sul em São Paulo

A mesma lógica está presente na Europa Ocidental, onde as seleções de futebol foram moldadas por duas ondas de movimentos migratórios mais recentes. Durante as migrações que acompanharam a descolonização e o longo boom do pós-guerra, a Inglaterra ganhou uma comunidade afro-caribenha, a Alemanha, os "gastarbeiters" (trabalhadores migrantes) turcos, a França começou a absorver africanos francófonos, os congoleses migraram para a Bélgica e os surinameses, para a Holanda.

Em todos esses países, a composição mutante da seleção nacional serviu tanto como emblema otimista da integração bem-sucedida como motivo de acusações de inautenticidade. Para muitos comentaristas da extrema-direita, quem canta ou deixa de cantar o hino nacional antes das partidas virou critério e sinal de cidadania.

Nas duas últimas décadas, novos fluxos de refugiados e migrantes econômicos que chegaram à Europa marcaram presença no futebol. A Itália ganhou seu primeiro jogador internacional negro e craque indiscutível, Mario Balotelli. Quase dois terços da seleção suíça tem ascendência migrante. Há jogadores de origem afro-alemã e afro-espanhola. Já as seleções da Europa mais do leste –Bósnia, Croácia, Rússia e Grécia–, apesar de terem suas próprias complexidades étnicas internas, são brancas.

As seleções mais etnicamente homogêneas presentes na Copa são as do Japão e Coreia do Sul, ambos países com populações imigrantes pequenas. Nas arquibancadas, porém, não faltam evidências das comunidades migrantes desses países: nipo-brasileiros cujos antepassados deixaram o Japão para trabalhar nos cafezais paulistas no final do século 19 e brasileiros de origem coreana. Essas comunidades de diáspora, que mantêm um diálogo emocional e prático com seus países de origem, são mais bem representados pelo Irã e a Argélia. O técnico Carlos Queiroz convocou iranianos nascidos na Suécia, Holanda e Alemanha. Dezesseis jogadores da seleção argelina nasceram na França, mas optaram por representar o norte da África.

Lui Siu Wai - 26.jun.2014/Xinhua
Torcedores durante o jogo dos Estados Unidos contra a Alemanha em Recife
Torcedores durante o jogo dos Estados Unidos contra a Alemanha em Recife

Seja o que for que representam, os jogadores profissionais de futebol estão longe de serem migrantes pobres, eles próprios. Eles atuam num mercado de trabalho global altamente qualificado e bem pago, algo que também é encontrado no campo dos serviços financeiros e profissionais. As quatro seleções da África Ocidental –Camarões, Nigéria, Gana e Costa do Marfim– têm apenas seis de seus 92 jogadores que jogam para times domésticos, e quatro desses seis são goleiros.

A cidadania é negociável. Croácia e Espanha ganharam respectivamente os brasileiros Eduardo e Diego Costa. Apenas ingleses e russos, que não são migrantes futebolísticos de grande sucesso, jogam principalmente em casa, em suas próprias e ricas ligas nacionais.

Dado que os campos de futebol da Copa do Mundo de 2014 oferecem um quadro tão interessante da diversidade e complexidade étnica do mundo, não está claro se o mesmo pode ser dito do público ou das equipes técnicas. O holandês Patrick Kluivert é um dos muito poucos rostos negros no banco de um técnico europeu. Nenhuma seleção latino-americana tem um técnico de origem africana ou indígena. Gana e Nigéria optaram por técnicos locais, mas Camarões e Costa do Marfim são comandadas por técnicos europeus.

A Fifa vem investigando alguns incidentes pequenos de slogans racistas gritados por argentinos e mexicanos e a presença de faixas de extrema-direita, até fascistas, entre os contingentes croata e russo. O que é mais significativo, contudo, é que nenhum dos contingentes de torcedores que viajaram para assistir à Copa parecem compartilhar a diversidade étnica de suas seleções. Seria difícil fazer uma sondagem demográfica razoável a partir da altamente seletiva cobertura televisiva dos jogos no Brasil, mas o público brasileiro nos estádios parece ser em sua grande maioria branco, e o enorme contingente colombiano, também. Desconfio que o mesmo possa ser dito em relação aos europeus.

É claro que a mesma lógica cruzada da divisão étnica e social que explica a super-representação de grupos minoritários no futebol profissional também explica a relativa ausência deles do turismo futebolístico de alto custo e também das esferas de comando do esporte.

Quando a poeira em torno da Copa do Mundo tiver assentado, a Fifa –preocupada, e com razão, com o comportamento dos torcedores e atos públicos de racismo– talvez possa voltar sua atenção aos mundos particulares do racismo e discriminação institucionais e para o dilema crescente de se encenar um festival de universalismo no qual apenas os bem de vida ou ricos podem estar presentes.

Tradução de CLARA ALLAIN


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