Folha de S. Paulo


O momento em que Orson Welles se apaixonou pelo cinema

No ano passado, a notícia de que uma cópia não editada do filme perdido de Orson Welles (1915-1985) "Too Much Johnson", anterior ao seu primeiro longa-metragem, "Cidadão Kane" (1941), tinha sido encontrada num depósito em Pordenone, na Itália, foi saudada com enorme interesse. Produzido em 1938 como parte de uma apresentação em mídia mista da comédia de 1894 do ator e dramaturgo William Gillette, o filme consiste de três segmentos filmados intersticiais criados para contextualizar a peça, que, infelizmente, foi um fracasso de público em suas apresentações experimentais no teatro Stony Creek, no Connecticut, e nunca chegou à Broadway.

A.M.P.A.S./Associated Press
Orson Welles durante as filmagens de
Orson Welles durante as filmagens de "Too Much Johnson" (1938)

Restauradas sob a égide da George Eastman House e da Fundação Nacional de Preservação do Cinema, as imagens (cerca de 66 minutos ao todo) tinham sido exibidas ao público apenas três vezes antes de serem apresentadas no Museu de Arte Los Angeles County, em 3 de maio, juntamente com o primeiro filme conhecido de Welles, o curta-metragem surrealista "The Hearts of Age" (1934), que ele fez quando tinha 19 anos e ainda era aluno da Todd School for Boys.

"Isso parece muito mais maduro que 'The Hearts of Age'", comentou Scott Simon, historiador do cinema e professor de inglês na Universidade da Califórnia em Davis, falando de um filme que parece assinalar o momento em que Welles descobriu sua verdadeira vocação. "Não é especulativo demais dizer que fica claro que ele se apaixonou por alguma coisa ligada ao fazer cinema."

Ao lado dos historiadores e preservacionistas presentes na sessão do filme estava Norman Lloyd, ex-membro do teatro Mercury (de Welles e John Houseman) e veterano de dois filmes de Hitchchock, "Sabotador" e "Quando Fala o Coração". Lloyd, que em novembro fará 100 anos de idade, disse à plateia: "Eles gritavam tão alto um com o outro que ficava muito fácil ler as páginas de esportes dos jornais durante o ensaio."

Após uma série de sucessos –incluindo a produção inaugural da companhia, uma versão de "Julius Caesar" em que Lloyd fez o papel de Cinna–, Welles decidiu ambientar a ação de "Too Much Johnson" 14 anos depois de quando a peça foi escrita, enxugando o texto para o público da era do jazz, infundindo um senso de humor maluco ao texto e acrescentando o gancho da junção de cinema e teatro.

Joseph Cotten faz o papel de um advogado mulherengo, visto inicialmente namorando Arlene Francis. O marido desta, Edgar Barrier, os flagra no ato, e Cotten foge pela escada de incêndio, dando início a uma perseguição pelos telhados de Nova York e o mercado de West Washington.

Virginia Nicholson, mulher de Welles à época, tem um papel coadjuvante, e John Houseman faz uma ponta como um policial do tipo incompetente visto em comédias pastelão da época do cinema silencioso. De acordo com Simmon, também estão no elenco Judith Tuvim, conhecida como a futura premiada com o Oscar Judy Holliday ("Nascida Ontem", 1950), que na época trabalhava em função administrativa no Mercury.

National Film Preservation Foundation/Associated Press
O ator Joseph Cotten e a atriz Arlene Francis em cena de
O ator Joseph Cotten e a atriz Arlene Francis em cena de "Too Much Johnson"

Para fazer o filme, Welles estudou "Safety Last!", de Harold Lloyd, e alguns filmes de Buster Keaton, usando técnicas como cortes ágeis e ângulos de câmera vertiginosos, além de fazer o filme avançar mais lentamente do que avançaria quando estivesse sendo visto, conferindo o visual acelerado das comédias mudas.

Ele se permitiu apenas dez dias para rodar as cenas e 20 dias para editar, o que parece indicar que teria encarado a produção de modo casual. Mas a encenação complexa e os ângulos múltiplos sugerem que ele deve ter ficado fascinado com o processo. Demonstrando um olhar aguçado e senso cinematográfico apurado, Welles habilmente contrasta o primeiro plano, o plano intermediário e o plano de fundo, usando truques de mágica e encenação complicada. O ritmo ágil da edição pressagia seus trabalhos futuros, com linhas diagonais caindo uma sobre a outra de um quadro para o seguinte, infundindo energia cinética à perseguição.

No segundo trecho intersticial, a ação se desloca para Cuba, apesar de ter sido rodada numa pedreira no vale do Hudson, em Nova York, acrescido de algumas falsas palmeiras para criar uma aparência tropical. Há tomadas que contextualizam a ação e takes dos atores caminhando por paisagens rochosas. A seção final envolve uma luta cômica com espadas que passa do alto de um penhasco para uma lagoa rasa. Há até algumas imagens mudas do tipo "making of", com Welles usando chapéu de palha e dirigindo atores que a câmera não mostra.

Assistindo às imagens, uma pergunta se impõe: por que Welles se deu apenas um mês para filmar e editar antes da estreia da peça. Será que subestimou as dificuldades do processo –ou do fascínio que exerceria sobre ele, como artista? Enquanto o primeiro trecho intersticial é comparativamente bem acabado, os dois outros são montagens inacabadas que incluem imagens não editadas e tomadas múltiplas, indicando que Welles estava cortando à medida que filmava, ao que consta numa moviola em seu quarto de hotel em Manhattan.

Ao mesmo tempo, ele estava no processo de levar o teatro Mercury para o rádio, expondo a companhia a um público radiofônico grande.Tendo que cuidar de tantas coisas ao mesmo tempo, por que ele simplesmente não entregou as imagens brutas a um editor experiente?

"Welles insistia em fazer a edição, ele próprio", diz Simmon. "Há evidências de que ele não conseguia tirar as mãos do material."

A peça estreou sem as cenas intersticiais, que teriam conferido sentido à história, e foi imediatamente arrasada pelos críticos. Humilhado, Welles se isolou. Mas dois meses depois o Mercury estava no ar, apavorando milhões de pessoas com sua célebre emissão de 1938 de "A Guerra dos Mundos", que tornou o nome de Orson Welles conhecido pelo grande público e o impeliu para Hollywood e "Cidadão Kane".

"Eu compararia 'Too Much Johnson' ao tipo de filme que Welles fez mais por conta própria, na Europa, no final de sua carreira", diz Simmons, citando clássicos posteriores como "Othello" (1952) e "Falstaff - O Toque da Meia-Noite" (1965), realizados com financiamento independente. "A sensação é de alguém que estava se virando com os recursos que tinha à mão, não recorrendo a Hollywood."

A exibição do filme no dia 3 de maio, em Los Angeles, inaugurou a série "The Essential Orson Welles", da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que será mostrada até 7 de junho. Quanto à montagem completa da peça, foi manifestado interesse nesse sentido. Primeiro, porém, alguém terá que encarar a tarefa nada invejável de cortar as imagens para os 30 minutos pretendidos, acrescentando 75 minutos de ação no palco. Então o público poderá ver a obra quase como Orson Welles, que teria completado 99 anos em 6 de maio, pretendeu que fosse vista.

Tradução de CLARA ALLAIN

Veja 16 frames do filme de Welles:

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