Folha de S. Paulo


Satyros levam ao cinema obra violenta e libertina do marquês de Sade

André Stefano/Divulgação
Cena do filme 'A Filosofia na Alcova
Cena do filme 'A Filosofia na Alcova'

Nos anos 1990, os ucranianos censuraram, os ingleses acharam graça, e os portugueses os chamaram de discípulos da atriz pornô Cicciolina.

Resta saber o que os brasileiros de 2017, do ano em que a nudez na arte foi confrontada por conservadores, acharão da profusão de corpos em "A Filosofia na Alcova".

O longa, rodado em 2015, é uma adaptação da peça homônima encenada pelo grupo Os Satyros aqui e lá fora desde 1990, e levada ao cinemas sob batuta da própria companhia teatral. Estreia nesta sexta (17) no Festival Mix Brasil, em sessão grátis.

"É como se o próprio marquês de Sade tivesse escolhido a data", afirma Rodolfo García Vázquez, que dirige a obra com Ivam Cabral. Sade é o autor do texto original, um ensaio dramático sobre poder, submissão e libertinagem durante a França pós-1789.

Para García Vázquez, a obra escancara a "intolerância hipócrita que há no conservadorismo". "Pense no Brasil de hoje em que um dos líderes dessa onda [Alexandre Frota] é ex-ator pornô".

Na história, dois devassos promovem a educação sexual de uma virgem numa alcova repleta de escravos. Ali, sexo ganha contornos de violência e a nudez é mostrada sem pudores, como numa cena de orgia com 60 atores.

"Nada ali é excitante, é tudo terrível. Sade não é erótico, é pornográfico", diz Ivam Cabral. Ele e García Vázquez dão cor brasileira à trama de Sade entre tomadas aéreas da favela de Paraisópolis e de limusines que circulam pela praça Roosevelt, onde a trupe de teatro fincou sua sede.

Aventurar-se no cinema, diz Cabral, já era plano antigo. A experiência com minisséries e telefilmes para a TV Cultura, na década passada, deu algum estofo. E a realização do longa "Hipóteses para o Amor e a Verdade" (2014), também adaptado de uma peça do grupo, foi um gatilho.

"A Filosofia na Alcova" foi rodado a jato. O galpão de uma fábrica em Santo André serviu de locação principal, e os custos da produção, entre R$ 150 mil e R$ 200 mil, vieram do caixa d'Os Satyros.

García Vázquez diz que o fato de terem escalado os mesmos atores da peça ajudou na produção. "Já havia intimidade com os papéis e também entre o elenco, o que ajudou nas cenas de nudez."

Cabral, que é também diretor executivo da SP Escola de Teatro, pretende implantar cursos de cinema dentro da instituição, no centro da capital paulista, já a partir do começo de 2018. Ele diz já ter firmado uma parceria com a Netflix para a formação de técnicos em som e iluminação. "Cinema é o nosso grande projeto para o futuro", diz.

A FILOSOFIA NA ALCOVA
DIREÇÃO Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez
ELENCO Henrique Mello, Bel Friósi, Stephane Sousa, Felipe Moretti
PRODUÇÃO Brasil, 2017, 18 anos
MIX BRASIL sexta (17), às 21h30, no CineSesc; sessão gratuita


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