Folha de S. Paulo


Casa de diarista na zona leste estará na Bienal de Veneza

Uma brisa atravessa toda a casa, trazendo o cheiro das folhinhas de hortelã da horta que Dalva Borges plantou no terraço. "Olha que ventinho gostoso vem lá de fora", diz a diarista. "É fresquinho aqui. Essa é uma casa simples, mas é meu palacete."

Nas mais de três décadas que leva fazendo faxina, Borges conheceu muitas casas, mas nenhuma, ela diz, é igual à dela —um sobrado simples, de dois quartos, todo de linhas e ângulos retos. As paredes deixam aparentes os blocos de concreto, e o piso é de cimento queimado, mania de dez entre dez arquitetos moderninhos.

Em Pinheiros ou na Vila Madalena, seria a casa-fetiche do hipster padrão. Mas na Vila Matilde, bairro da zona leste de São Paulo, onde fica a casa de Borges, a construção é a mais "diferente" da rua. Ela diz ainda estar se acostumando com o piso, que "às vezes parece que a rua está dentro de casa".

Também escalada para o pavilhão brasileiro na próxima Bienal de Arquitetura de Veneza, esse projeto da firma paulistana Terra e Tuma não teria relevância alguma não fosse sua história —isso quem afirma é seu arquiteto.

Danilo Terra e sua equipe trabalharam com um orçamento enxuto de R$ 100 mil poupados por Borges para demolir sua antiga casa, que estava desmoronando, e construir uma nova no mesmo lote.

"É uma arquitetura cuidada, a gente se debruçou mesmo sobre o projeto", diz Terra. "O desenho nasce dessas circunstâncias, um lote estreito e um programa simples."

Toda a circulação se dá em volta de um pequeno pátio no meio da casa, a solução encontrada para levar luz natural à parte de trás da construção.

Washington Fajardo, que organiza a representação nacional este ano em Veneza, diz que viu na casinha da Vila Matilde um exemplo de obra em pequena escala que aponta uma "possibilidade de construção mais orgânica", um desenho "inspirado pela energia de mudar a realidade".

Reflete também uma nova realidade na elite do pensamento arquitetônico, que vem descartando obras faraônicas para criar projetos mais funcionais e econômicos, algo urgente em tempos de crise.

De acordo com Terra, essa mudança de atitude também implica uma revisão da figura do arquiteto na sociedade.

"Na faculdade a gente aprende que só vai ser feliz se construir um aeroporto, um museu, um estádio", diz ele. "Os arquitetos viveram numa bolha que não corresponde em nada à realidade do nosso país. Desde o fenômeno do Guggenheim de Bilbao, a gente vive deslumbrado."

Mas o que Terra chama de "tempestade perfeita", a crise econômica e a proposta da próxima Bienal italiana, chacoalhou essa perspectiva. "Nossa esperança é que isso sirva de reflexão para uma nova arquitetura".


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