Folha de S. Paulo


Após 45 anos, palco de assassinatos sangrentos de Manson 'vive em paz'

Visitar o local de um assassinato famoso assombra a imaginação de qualquer pessoa -ainda mais de jornalistas. Pois no fim de semana passado, quando o assassinato da atriz Sharon Tate completou 45 anos, fomos dar uma volta pela área.

Sharon, 26, estava grávida de 8 meses do diretor Roman Polanski, quando a casa em que estava foi invadida pela gangue do maníaco Charles Manson, preso até hoje.

A tragédia é o ápice doentio da ação criminosa sangrenta que acabou com o sonho hippie. Na noite de 8 de agosto de 1969, Charles "Tex" Watson, Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Linda Kasabian receberam a ordem de Manson, líder de uma "família" de dementes: eles deveriam ir à casa localizada no número 10.050 da Cielo Drive, em Beverly Hills, bairro rico de Los Angeles, e "matar todos da maneira mais grotesca possível".

Na madrugada do dia 9, o quarteto assassinou a tiros e facadas cinco pessoas ali, inclusive Tate, que tinha uma corda amarrada ao pescoço.

Editoria de arte/Folhapress

'HELTER SKELTER'

No caminho até o local, enfrentamos seis quilômetros de subidas e descidas apertadas de uma área repleta de lojas chiquérrimas, mansões de jardins impenetráveis e quase ninguém nas calçadas.

A ideia é absurda, mas é impossível desligar aquela chave do cérebro que espera o rádio repentinamente tocar "Helter Skelter", música dos Beatles que inspirou os assassinatos.

Mas o famoso endereço nas colinas da Cielo Drive agora vive em paz. Não havia nenhuma vigília ou flores em homenagem a Sharon Tate.

Talvez porque a casa original dos assassinatos tenha sido demolida em 1994 e, hoje, o terreno sustente uma mansão que enxergamos de longe, propriedade de um executivo de TV. Ou talvez porque a prefeitura tenha mudado o número para 10.066.

O fato é que a área continua sendo de difícil acesso para pedestres. A estradinha que leva aos portões da mansão agora é privativa, como avisa uma placa, e vigiada por câmeras -mas o poste escalado por Watson para cortar os fios de telefone ainda está lá, pouco iluminado.

A ordem era de cometer atrocidades para chamar atenção da mídia de uma guerra imaginária entre raças. Por isso, Tex Watson pediu que Susan Atkins escrevesse na porta da entrada. Ela molhou um pano com o sangue de Tate e pintou: "PIG" ou "Porco".

Eric Risberg/Associated Press
O serial-killer Charles Manson, em foto de 1986
O serial-killer Charles Manson, em foto de 1986

OUTRO ENDEREÇO

Investigar o cenário atual de outro crime famoso da família demente foi mais fácil. Moramos a minutos do número 3.301 (hoje 3.311) da Waverly Drive, no tranquilo bairro de Los Feliz, parte leste de Los Angeles, onde, no dia seguinte ao assassinato de Tate, o casal Leno e Rosemary LaBianca foi morto. Ele, dono de uma rede de supermercados da época. A inscrição "HeaLter SkeLter" (sic) foi deixada com sangue na porta da geladeira.

Manson escolhera a residência pelo seu isolamento em relação a outras casas do bairro. E, de fato, até hoje, 45 anos depois, a mansão continua um tanto isolada e de difícil acesso, localizada em uma colina, em uma rua parcialmente sem calçada.

A casa, branca, ainda é a mesma dos assassinatos e mudou pouco. No início da noite, em Los Feliz, está longe de ser a mais macabra do bairro.

Na garagem, um gato preto nos observa. Tocamos a campainha. Mas ninguém atendeu. E com a chegada da noite, partimos de volta para casa. Aliviados.


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