Folha de S. Paulo


Protesto de jogadores revive espírito de ativismo da era de Muhammad Ali

Colin Kaepernick, quarterback (principal jogador de ataque numa equipe de futebol americano) do San Francisco 49ers, causou debate nos Estados Unidos ao escolher não acompanhar de pé a execução do hino nacional no início das partidas, e isso inspirou alguns outros jogadores a seguir seu exemplo.

Como parte de seu protesto continuado contra a injustiça racial, Kaepernick optou por se ajoelhar no momento do hino antes de um jogo na noite de segunda-feira (12), e outros jogadores fizeram o mesmo e ergueram os punhos cerrados. Um dia antes, quatro jogadores do Miami Dolphin se ajoelharam durante o hino, e um jogador do Kansas City Chiefs ergueu o punho, em outra partida, e declarou mais tarde que sua ação era uma demonstração de solidariedade a Kaepernick. No domingo, dois jogadores do New England Patriots e três do Tennessee Titans também ergueram os punhos durante o hino.

As ações foram consideradas radicais porque aconteceram em um cenário esportivo no qual posturas provocativas são raras, entre os jogadores mais importantes, apesar da intensidade da discussão nacional sobre questões de raça, justiça e política.

Thearon W. Henderson/AFP
Colin Kaepernick, no centro da imagem, e o colega Eric Reid, do San Francisco 49ers, protestam durante a execução do hino dos EUA antes de partida em Los Angeles
Colin Kaepernick, no centro da imagem, e o colega Eric Reid, do San Francisco 49ers, protestam durante a execução do hino dos EUA antes de partida em Los Angeles

De acordo com atletas em atividade e aposentados e com dirigentes esportivos, os atletas profissionais se veem envolvidos em preocupações financeiras e de marca; uma cultura esportiva que preza a atitude de "um por todos e todos por um"; e torcidas que preferem que os jogadores calem a boca e só joguem.

"Se você não sabe o que enfrentará, está se colocando em uma enrascada", disse Ricky Jean François, que joga como ponta defensivo no Washington Redskins, time da NFL (National Football League), a principal liga de futebol americano profissional. "Você pode perder o emprego. Pode perder o patrocínio. Pode perder o relacionamento com os figurões. Os caras não querem perder aquilo por que trabalharam tanto ao longo de toda a carreira".

A maior parte da ação vista hoje acontece em apoio a causas estabelecidas. Muitos jogadores influentes, na mídia social ou em oportunidades ocasionais de se pronunciarem, fizeram apelos modestos contra a violência e por um melhor relacionamento entre as raças. Outros podem ter ido um passo além.

Os jogadores do Miami Heat posaram para uma foto usando agasalhos com capuzes, em 2012, depois que Trayvon Martin, que estava vestido desse jeito, foi morto a tiros em Sanford, Flórida. Em 2014, jogadores de basquete universitário e profissional usaram em seu aquecimento pré-jogo camisetas que diziam "não consigo respirar" –um dos lemas dos manifestantes da cidade de Nova York depois que um policial segurou Eric Garner pelo pescoço e o sufocou, causando sua morte, em Staten Island. O time de futebol americano da Universidade do Missouri no ano passado se recusou a jogar até que o reitor do sistema universitário renunciasse, o que ele fez dois dias depois do anúncio do boicote.

Em julho, sete jogadoras da WNBA, a liga profissional de basquete feminino dos Estados Unidos, usaram em seus aquecimentos camisetas em apoio ao movimento "Black Lives Matter" (vidas negras importam, em tradução livre) e aos cinco policiais recentemente mortos em Dallas. Elas foram multadas, mas as multas foram canceladas posteriormente. No mesmo mês, Carmelo Anthony, LeBron James, Chris Paul e Dwyane Wade, quatro dos maiores astros da NBA, a principal liga de basquete masculino profissional dos Estados Unidos, abriram a cerimônia de entrega dos prêmios ESPY convocando seus colegas atletas a pressionar por mudança em questões de raça, policiamento e violência.

Robert Deutsch/USA TODAY Sports
Kyrie Irving, jogador do Cleveland Cavaliers, usa uma camiseta com a frase
Kyrie Irving, jogador do Cleveland Cavaliers, usa uma camiseta com a frase "não consigo respirar" durante aquecimento antes de jogo em 2014

Ainda assim, poucos atletas se expuseram de maneira semelhante à de Kaepernick, e menos ainda se tornaram ativistas como aqueles que gerações anteriores aprenderam a admirar. A ousadia de Jack Johnson, um boxeador do começo do século 20, poderia ter levado ao seu linchamento –e de fato o levou à prisão, por um envolvimento romântico com uma mulher branca.

Muhammad Ali perdeu alguns dos que poderiam ter sido seus melhores anos como boxeador por ter se recusado a lutar na guerra do Vietnã. Os velocistas olímpicos Tommie Smith e John Carlos foram suspensos da Olimpíada da Cidade do México-1968 e mandados para casa porque ergueram os punhos cerrados ao ar em cerimônias de premiação, expressando solidariedade ao movimento negro. Smith e Carlos voltaram aos Estados Unidos e foram recebidos com ameaças de morte, e suas carreiras olímpicas acabaram.

Mas Johnson e Ali competiam em um esporte individual e, porque agiram antes que o esporte profissional se tornasse um grande negócio, não corriam o risco de perder os grandes contratos de patrocínio que existem hoje.

Brandon Marshall, defensor do Denver Broncos, está sentindo o efeito financeiro de ter se ajoelhado durante o hino nacional antes da partida de estreia de seu time na semana passada: perdeu dois contratos de patrocínio.

Mas há quem acredite que os atletas deveriam pressionar ainda mais por essa causa.

"Falta um atleta ao estilo Muhammad Ali nessa geração, especialmente entre os homens", disse Layshia Clarendon, armadora do Atlanta Dream, na WNBA.

Referindo-se à camiseta de protesto de algumas de suas colegas de liga, ela acrescentou que "se LeBron [James], [Dwyane] Wade e caras como esses decidissem se erguer e declarar que não aceitam alguma coisa, se eles fizessem algo assim, seria tremendo".

Os proprietários de times ocasionalmente enviam sinais sutis aos jogadores, pedindo que não causem agito, a fim de impedir uma tempestade de opiniões políticas e sociais. Josh Childress, que jogou por oito temporadas na NBA e no ano passado teve uma passagem pelo Texas Legends, um time da liga de acesso da NBA, disse que "existe claramente uma pressão silenciosa" dos times e dos patrocinadores para que os atletas se censurem.

Chris Pizzello/Associated Press
Jogadores de basquete da NBA, Carmelo Anthony, Chris Paul, Dwyane Wade e LeBron James durante discurso contra a violência nos prêmios ESPY
Jogadores de basquete da NBA, Carmelo Anthony, Chris Paul, Dwyane Wade e LeBron James durante discurso contra a violência nos prêmios ESPY

"Quanto menos distração para o time, melhor", disse Childress. "Acho que serve aos interesses deles manter o atleta em sua caixa. A menos que o atleta tenha uma personalidade excêntrica que o torne mais querido do público, ou que ele seja muito, muito bom em seu esporte, os times preferem manter as coisas sob controle. Querem que os atletas façam seu trabalho em quadra e que as distrações sejam mantidas sob controle".

Os atletas de hoje não são "desordenadores o suficiente", disse Brandon Ayanbadejo, antigo jogador da NFL que começou a expressar apoio ao casamento homossexual em 2008, antes que a maioria dos Estados norte-americanos aprovassem medidas nesse sentido. "Acho que se você deseja ser ouvido e deseja fazer diferença, é preciso desordenar. É só assim que sua história vai repercutir".

Isso, no entanto, pode ser difícil quanto os atletas mesmos se veem diante de regras não escritas que os proíbem de falar sobre raça, religião ou política.

Depois que Ayanbadejo expressou sua posição sobre o casamento gay, alguns colegas de time fizeram piadas. Os dirigentes da equipe, o Baltimore Ravens, não atenderam a pedidos de entrevistas destinados a ele.

"Quer se trate dos agentes, da família ou dos assessores financeiros, em torno de cada atleta existe uma cultura que diz que o importante é maximizar os patrocínios e construir a melhor conexão possível com sua comunidade", disse Robert Boland, diretor do programa de administração esportiva da Universidade do Ohio.

Mas será justo esperar que os atletas –especialmente os atletas negros– assumam a liderança na luta contra a injustiça social?

"Os atletas não são treinados para serem políticos; não são treinados para serem ativistas", disse Todd Boyd, que detém a cátedra Katherine and Frank Price de estudo de questões raciais e cultura popular na Universidade do Sul da Califórnia. "Os atletas brancos não são submetidos aos mesmos padrões".

Também não é justo comparar os atletas atuais aos seus predecessores. "O que as pessoas parecem esquecer é que Muhammad Ali foi convocado e seria enviado para combater no Vietnã –isso é uma coisa muito concreta", disse Boyd. "Ali não estava protestando porque tinha bom coração. Estava tentando evitar lutar em uma guerra com a qual não concordava."

Associated Press
Muhammad Ali em 1967, escoltado por oficiais dos EUA no centro de recrutamento do exército americano em Houston, Texas, depois de recusar fazer parte das forças armadas
Muhammad Ali em 1967, escoltado por oficiais dos EUA no centro de recrutamento do exército americano em Houston, Texas, depois de recusar fazer parte das forças armadas

Ao longo dos anos 80 e 90, o ativismo dos atletas pareceu se acalmar, enquanto, talvez não por coincidência, as receitas e salários do esporte disparavam e o cultivo cuidadoso de marcas se tornava a norma.

Talvez ninguém tenha personificado esse espírito de moldar cuidadosamente uma imagem mais do que Michael Jordan, o maior astro do esporte em sua era. Este ano, depois de meses da questão, ele divulgou
um comunicado se manifestando contrariamente a uma lei da Carolina do Norte que restringe as proteções contra discriminação a homossexuais, bissexuais e transgêneros. Uma lei que levou a NBA a retirar do Estado seu jogo comemorativo, o All-Star Game.

Jordan, no entanto, é conhecido por sua longa aversão a assumir posturas políticas em sua carreira como jogador, tendo declarado, de acordo com algumas pessoas, que "os republicanos também compram tênis". Jordan nega que tenha feito essa declaração, atribuída a ele em "Second Coming: The Strange Odyssey of Michael Jordan" (1995), livro de Sam Smith. Mesmo que a citação não proceda, Jordan sempre mostrou pouca disposição de se envolver em controvérsias políticas.

"Sempre imaginei como isso afetava outros jogadores, que entendiam que a posição de Michael era a de não querer fazer nada que ameaçasse sua marca", disse Michele Roberts, diretora executiva do sindicato dos jogadores da NBA. "Ou seja: se Michael não faz, eu também não vou fazer".

Um dos colegas de Jordan no Chicago Bulls, Craig Hodges, contrariou a tendência e, segundo ele, pagou o preço.

Quando o time visitou a Casa Branca depois de vencer seu segundo título consecutivo, em 1992, Hodges entregou ao presidente George Bush uma carta pedindo que ele fizesse mais para por fim às injustiças contra os negros norte-americanos.

Nem os Bulls e nem qualquer outro time da liga assinou com Hodges para a temporada seguinte, o que pôs fim aos seus 10 anos na NBA. Hodges processou a liga, afirmando ter sido excluído por conta de sua disposição de se pronunciar, mas o processo fracassou.

Entretanto, acontecimentos recentes –especialmente os casos de homens negros desarmados mortos por policiais– vêm gerando debate vigoroso, muitas vezes feroz, sobre as relações raciais e a justiça.

Com as principais ligas esportivas dos Estados Unidos dominadas em muitos casos por jogadores negros, alguns deles se sentiram intimados a falar. Mas Carmelo Anthony, ala e astro do New York Knicks, expressou frustração por as ações muitas vezes se restringirem a declarações, ou participação ocasional em um protesto.

Algumas semanas atrás, depois que a polícia matou mais dois negros em Baton Rouge, Louisiana, e Minneapolis, e que cinco policiais foram mortos em Dallas, Anthony postou no Instagram um apelo passional aos
atletas, pedindo que eles fizessem mais que participar de marchas e postar mensagens no Twitter, e que "pressionassem as pessoas que estão por cima", para obter "justiça".

Reprodução/Instagram oficial Carmelo Anthony/carmeloanthony

Mais tarde, ele organizou uma discussão entre os atletas da equipe olímpica dos Estados Unidos, em Los Angeles, convidando também representantes da polícia e líderes comunitários.

Roberts, do sindicato dos jogadores da NBA, elogiou Anthony por ir além da expectativa de que os jogadores devem apenas jogar.

"Se você está muito preocupado com prejudicar sua marca, fará o que muita gente diz: calará a boca e jogará, o que, infelizmente, é uma crença muito popular para boa parte de nossa comunidade", ela disse, acrescentando que "embora as ações dele tenham sido bastante neutras, em termos do conteúdo das declarações, ainda assim cruzaram uma linha que muita gente acha os jogadores não deveriam ousar cruzar".

Mas nenhum atleta recente causou mais controvérsia do que Kaepernick. Ele começou a causar agitação ao ser flagrado sentado durante o hino nacional em um jogo de pré-temporada do 49ers no mês passado; ele disse ao site NBA.com que o fez porque "não vou mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e as pessoas não brancas".

Kaepernick, filho de mãe branca e pai negro e que foi criado por uma família adotiva, recebeu críticas ferozes de pessoas de dentro e de fora da NFL, que afirmaram que sua atitude era um desrespeito às forças armadas.

Mas seu protesto inspirou outros atletas a fazer o mesmo e seu time a contribuir com US$ 1 milhão para uma fundação que trabalhará pela "melhora da desigualdade racial e econômica, e para fomentar a
comunicação e colaborações entre as autoridades policiais e as comunidade a que elas servem", na área da baía de São Francisco, de acordo com um comunicado de Jed York, presidente-executivo do 49ers.

Ezra Shaw/AFP
Kenny Britt e Robert Quinn do Los Angeles Rams levantam os punhos em apoio ao protesto de Kaepernick, dos 49ers, na partida entre as duas equipes
Kenny Britt e Robert Quinn do Los Angeles Rams levantam os punhos em apoio ao protesto de Kaepernick, dos 49ers, na partida entre as duas equipes

Antes do jogo da noite de segunda-feira entre o 49ers e o Los Angeles Rams, Kaepernick manteve seu protesto ao ficar de joelhos durante o hino, acompanhado por um colega de time. Dois de seus colegas de equipe, bem como dois jogadores dos Rams, ergueram os punhos durante o hino.

Ainda que tenha sido colocado na reserva para o começo da temporada do 49ers, a camisa de Kaepernick se tornou a mais vendida da NFL. Ele prometeu doar sua parte nas vendas a organizações que combatam a
brutalidade policial.

Tradução de PAULO MIGLIACCI


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