Folha de S. Paulo


Grupo acusa bateria da medicina da USP Ribeirão Preto de racismo

A "morena gostosa", a "loirinha bunduda" e a "preta imunda".

É assim que um hino da bateria da faculdade de medicina da USP Ribeirão Preto (a 313 km de São Paulo), chamada Batesão, se refere às mulheres.

O caso foi denunciado pelo Coletivo Negro do campus da universidade e será discutido na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) nesta terça-feira (11).

A música, com conotação sexual, é cantada em jogos universitários e durante festas da faculdade e foi divulgada neste ano em um manual para calouros do curso, junto com camisetas da atlética da medicina.

De acordo com o Coletivo, que surgiu há cerca de quatro meses após um aluno da faculdade de direito ser ameaçado de morte e sofrer injúrias raciais no estacionamento da USP, várias músicas do manual têm conteúdo machista.

"A Batesão assume seu lugar de senhor de escravos, pega o chicote e violenta mais uma vez as mulheres negras, se não pelo estupro, pela subjugação do nosso corpo negro", afirma o grupo em nota.

O Coletivo disse que estuda entrar com uma ação judicial contra a faculdade de medicina ou a atlética, da qual a bateria faz parte.

Em nota, o professor Hélio Cesar Salgado, vice-diretor da faculdade de medicina, disse que "se surpreendeu" com a letra da música e que repudia esse tipo de atitude.

Ele informou que o caso será examinado pela direção.

Ninguém da Atlética Acadêmica Rocha Lima, da medicina, ou da Batesão quis se pronunciar sobre o material e as acusações.

Em nota divulgada em uma rede social da Batesão, o grupo diz que as músicas são "históricas" e foram criadas há muito tempo, quando "racismo e preconceitos eram comportamentos corriqueiros".

As letras teriam sido mantidas por um "descuido".

A bateria ainda se desculpa e diz que a música não é mais cantada na faculdade.

PRECONCEITO

A socióloga Renata Gonçalves, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirmou que há um preconceito institucional na universidade.

"A justificativa para que ninguém, a faculdade ou a USP tome uma atitude é que isso sempre aconteceu. Essas músicas sempre existiram", disse Renata.

De acordo com a socióloga, que montou um grupo de análise dos hinos dos centros acadêmicos da Unifesp, a USP, que deveria ter uma posição enérgica contra o preconceito, acaba por "encobertá-lo".

"É muito preocupante por se tratar de alunos da mais importante universidade do país. Eles sabem que estão sendo preconceituosos porque acobertam a atitude, mas ainda assim a fazem por entender que é só uma brincadeira", afirmou.


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