Folha de S. Paulo


Assassinato de jovem professora a marteladas choca MS e 3 são presos

Reprodução/Facebook
Mayara Amaral, 27, que foi assassinada em Campo Grande

Caçula de quatro irmãos, Mayara Amaral, 27, herdou a paixão pela música do pai, Alziro, servidor público aposentado e tocador de violão. Formou-se em música pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e fez mestrado na Federal de Goiás.

Em Campo Grande, chegou a participar de uma banda com levada pop chamada Pétalas de Pixe. Trabalhava como professora de violão para crianças. Os amigos destacam a timidez e o dom musical.

"Era um talento vigoroso, genial", lembra o professor Marcelo Fernandes, que a orientou na graduação. "Era uma em milhões". Para ele, Mayara tinha potencial para tornar-se uma das violonistas mais importantes da nova geração. "Ela queria ser concertista. É uma porta muito estreita, mas o mundo estava se abrindo."

A prima Lucila Martins define a melhor amiga: "Era uma eterna menina, meiga, queria voar, conhecer o mundo."

No almoço com a família neste domingo (30) a musicista iria contar uma novidade: havia sido aprovada para um doutorado em uma universidade de São Paulo.

Não deu tempo. Dias antes a talentosa jovem foi assassinada. Nesta semana, a polícia de MS prendeu em Campo Grande três suspeitos de terem matado Mayara a marteladas. O corpo dela foi encontrado queimado num matagal na rodovia MS-080, região conhecida como Inferninho.

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Segundo a Polícia Civil, os três homens presos vão responder por latrocínio e ocultação de cadáver.

Mas a irmã da jovem, a jornalista Pauliane Amaral, 31, contesta alguns pontos da versão do único suspeito que confessou o crime, e acredita que ela tenha sido vítima de estupro e feminicídio –quando a motivação do assassinato de uma mulher está ligada ao fato de ela ser mulher.

"É uma dor imensa, inexplicável, inesquecível, uma dor que vou levar no meu peito", disse a irmã da vítima, por telefone, da Bélgica, para onde se mudou há um mês para estudar francês. "Não estou dormindo, é muita angústia. A gente tem medo de fechar os olhos e começar a repassar toda essa história cruel, toda essa brutalidade na cabeça."

O caso começou na segunda (24), quando Mayara saiu da casa que dividia com amigas para ensaiar. No dia seguinte, sem receber notícias da filha, a mãe, Ilda, procurou uma das colega da musicista, que falou sobre uma possível ameaça de um ex-namorado.

Ilda foi à polícia registrar o desaparecimento e recebeu uma mensagem enviada do celular de Mayara. "Ele [o ex] é louco, mãe. Está me perseguindo. Estava na casa dele e brigamos feio". Depois disso, o aparelho foi desligado –a mensagem foi enviada depois que o corpo queimado já havia sido encontrado.

Quando Pauliane foi avisada do desaparecimento, o pai já estava no IML para fazer o reconhecimento do corpo. "Só tinha sobrado uma parte da mão e um pouco do pé para ele reconhecer, mas já tinha quase certeza que era ela", contou a irmã. A confirmação veio com um exame de DNA.

Os suspeitos foram identificados pela Polícia Civil na quarta (25). De acordo com delegado Tiago dos Santos, o ex-namorado foi descartado no início das investigações.

Por meio de rastreador do celular e informações de familiares e amigas, a polícia chegou até o baterista Luiz Alberto Barros, 29, com quem Mayara tinha um relacionamento.

Na casa dele, os policiais encontraram roupas da vítima, instrumentos musicais, computador pessoal, telefone e os documentos dela. O rapaz confessou o crime e disse que teve dois cúmplices: Ronaldo Olmedo, 33, e Anderson Pereira, 31. Os dois negaram qualquer participação.

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À polícia, Barros disse que atraiu Mayara para um motel. O encontro era uma emboscada para roubar o carro dela, um Gol 1992. Ainda na versão do namorado, Ronaldo entrou no motel no porta-malas, com conhecimento dela, e os três teriam mantido relações sexuais. Ao perceber a emboscada, Mayara teria tentado fugir, mas foi espancada até a morte.

O corpo foi colocado no veículo e levado à casa do terceiro suspeito. Lá, eles enterraram o cadáver no quintal, mas depois o levaram para a rodovia. Em seguida, provocaram o incêndio no matagal para dificultar a identificação.

Pauliane contesta a versão do sexo a três consensual. "Eu não descarto a possibilidade de ela ter ido com o Luís para o motel, já tinha ouvido alguma coisa de estarem numa relação afetiva". Porém, rechaça que a irmã tenha consentido a participação de outro.

"Eles armaram uma emboscada, um deles entrou escondido no motel, levaram martelo. Que sexo consensual é esse? Se trata de estupro."

A família aguarda a conclusão do laudo pericial para confirmar essa hipótese.

O delegado diz que o estupro ainda não está descartado e pode ser incluído no relatório final da polícia. Por enquanto, segundo ele, a investigação aponta para latrocínio. "Estão cogitando feminicídio. É plausível? É, mas, no momento, não. Vai depender da comprovação do laudo e do relatório final."

As penas previstas para latrocínio variam de 20 a 30 anos, enquanto as do feminicídio, de 12 a 30 anos.

Em audiência diante do juiz, que manteve a prisão dos suspeitos, Barros disse que sofreu maus-tratos da polícia. A Folha não conseguiu contato com seu advogado. Olmedo e Pereira ainda não tinham constituído defesa até a conclusão desta edição.

Distante da família, a irmã recebe apoio por telefone e mensagens nas redes sociais. Seu desabafo, no qual reforça que a tese de que a irmã foi vítima de estupro e feminicídio, teve 1.900 comentários e 12,4 mil compartilhamentos.

"Ao mesmo tempo que é muita dor, é muito amor". Uma manifestação está prevista para a próxima semana, em homenagem à musicista.

Numa rede social, a foto principal de Pauliane é a irmã no quintal de casa, segurando o violão. "Aquela foto representa muito ela, o olhar tímido, sereno". Após a confirmação da morte, diz, "rezei pela alma dela e joguei flores no rio, como forma de despedida da minha irmã."


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