Folha de S. Paulo


'Não é um protesto, o muro é meu', diz morador que pintou Beco do Batman

Chello/FramePhoto/Folhapress
O aposentado João Batista da Silva pintou de cinza os grafites pintados em seu muro
O aposentado João Batista da Silva pintou os grafites em seu muro de cinza

Cansado do barulho e do que chama de falta de respeito de alguns grafiteiros, o aposentado João Batista da Silva, 70, resolveu pintar o muro de sua casa de cinza. Acontece que o muro em questão integra a galeria de grafite a céu aberto –conhecida como Beco do Batman– na Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo.

"Não é um protesto, o muro é meu e faço o que eu quiser. O pessoal está abusando muito. Não respeita a gente", afirmou o aposentado, que pintou o muro com a ajuda do filho durante todo o dia desta segunda-feira (10).

Silva conta que a decisão de pintar de cinza não tem nada a ver com a proposta do prefeito João Doria (PSDB) de zeladoria urbana. "Até me chamaram de Joãozinho Doria, mas foi coincidência [a cor da pintura]. Fui até a loja e o vendedor me indicou o cinza chumbo para apagar os grafites. O cinza do Doria é mais claro", diz o aposentado.

Beco do Batman sendo pintado

Apesar do esforço de Silva, parte do muro de sua casa amanheceu nesta terça (11) com várias pichações, entre elas: "Existem coisas mais importantes que um muro cinza".

Auxiliar de enfermagem aposentado, Silva conta que desde o ano passado já queria pintar o muro de sua casa depois de um grafiteiro afirmar que ele deveria agradecer-lhe por não ter trabalho nem gastar dinheiro para efetuar a pintura do muro: "Você tem que dar graças a Deus que você não pinta sua casa. Nós a pintamos para você". "Fiquei com raiva', diz Silva.

Beco do Batman

O aposentado afirma que a maioria dos grafiteiros não tem respeito pelos moradores nem os consultam sobre as pinturas que fazem nos muros de suas casas. "Ninguém respeita ninguém. É muito barulho durante todo o dia, inclusive à noite. Às vezes, eu levanto quatro vezes durante a noite devido ao barulho deles."

Silva reclama ainda do fluxo de turistas que são levados para conhecer o Beco do Batman, mas que os moradores não recebem nada por isso. "Tem gente que leva turista à noite, fala alto, pula para tirar fotografia e ainda ganha dinheiro com isso."

Ponto turístico por causa das pinturas, os murais do Beco do Batman foram criados pelo grupo de artistas Tupinãodá, pioneiro da arte de rua paulistana que assinou também os murais no túnel da avenida Paulista. A Secretaria Municipal de Cultura afirmou que o Beco do Batman não é tombado.

No começo do ano, surgiram boatos de que o programa de zeladoria do prefeito João Doria (PSDB), o Cidade Linda, iria pintar os grafites do Beco, mas após pressão, o prefeito regional de Pinheiros, Paulo Mathias, garantiu que a viela não terá nenhum tipo de cobertura das obras.

Em recente entrevista, Doria afirmou que avaliou mal a questão dos grafites apagados no início de sua gestão na avenida 23 de Maio, zona sul de São Paulo.

"Deveríamos ter fotografado e filmado as artes que estavam pichadas, teríamos que convidar os grafiteiros e, com eles, ter feito essa ação, não à revelia deles, mesmo que os painéis estivessem pichados. (...) Deveríamos ter feito e não fizemos, avaliamos mal", afirmou.

Com a polêmica em torno dos grafites apagados, Doria lançou no mês passado o programa MAR (Museu de Arte de Rua), que pagará até R$ 40 mil a projetos de grafiteiros para áreas públicas da cidade. Serão selecionados inicialmente oito projetos que ocuparão diferentes regiões.


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