Folha de S. Paulo


Protesto pede volta do policiamento e rivaliza familiares de PMs em Vitória

Joel Silva/Folhapress
Manifestantes contrário à greve dos policiais militares fazem protesto em frente a quartel da PM em Vitória
Manifestantes contrário à greve dos policiais militares fazem protesto em frente a quartel da PM no ES

Cinco dias após a onda de violência que resultou em dezenas de mortes, saques e mudanças no cotidiano dos moradores da Grande Vitória, um contramovimento ganhou força nesta terça (7) exigindo a volta dos policiais às ruas das cidades capixabas.

Em frente ao quartel do Comando-Geral da Polícia Militar em Vitória, moradores que pediam a volta do policiamento discutiram com familiares dos policiais, na tarde desta terça. Conflito semelhante foi registrado em Guarapari, no litoral do ES.

Houve tentativa de diálogo entre mulheres de ambos os lados, mas a tensão cresceu quando os manifestantes contrários à paralisação atearam fogo em pneus, bloqueando uma avenida, o que levou o Exército a agir. Gás lacrimogêneo foi usado pelos militares.

Onda de violência no ES
PM está em greve desde o dia 3 de fevereiro

Centenas de pessoas se aglomeraram dos dois lados. "Polícia, cadê você, vim aqui só pra te ver", entoavam os manifestantes. Do outro lado, familiares e policiais à paisana respondiam: "Cadê o governador?". A tensão continuava no início da noite.

Desde sexta, familiares de policiais fazem manifestações em frente aos batalhões da corporação. Como os PMs são proibidos de realizar greves pela Constituição, seus familiares fazem a frente do movimento que bloqueia os batalhões e reivindica reajuste salarial de 65% até 2020.

O clima em frente ao quartel do Comando-Geral ficou tenso por boa parte da noite. Pessoas bloquearam a avenida e atearam fogo em uma caçamba a poucos metros dos militares, que não saíram da frente do quartel. Houve relato de saques.

Já durante a noite, a Segundo a Secretaria de Segurança afirmou que batalhões nas cidades de Vila Velha, Cachoeiro de Itapemerim e São Mateus retomaram o trabalho. Policiais ouvidos pela reportagem, no entanto, dizem que há uma tentativa de retomar o policiamento e algumas poucas viaturas saíram às ruas.

INSEGURANÇA

Apesar da presença da Força Nacional e do Exército, a terça-feira foi mais um dia violento no Estado. Um tiro atingiu um ônibus, houve um tiroteio no bairro Santa Rita, em Vila Velha, e em Serra, um condomínio de prédios foi invadido.

Em Colatina, o policial Mario Marcelo de Albuquerque foi morto após tentar intervir em um roubo a um motociclista e foi atingido. Os assaltantes fugiram. Ao todo, 75 pessoas foram mortas desde o final de semana, segundo o Sindicato dos Policiais Civis. O Estado não confirma o total de mortes.

Na segunda, um guarda municipal já tinha sido baleado em Vila Velha também em troca de tiros. Seu estado não é grave.

Funcionária de uma lanchonete na capital, Valença Valfre disse que acumula prejuízos desde domingo (5). "Fechou porque teve um arrastão e não abriu mais."

"Duas lojas da rede em que trabalho foram saqueadas, além de lojas de amigos que foram roubadas. Concordo com o aumento do salário, mas não com a forma [paralisação], que prejudica a população", disse Geane Lopes da Silva, gerente de loja.

Segundo o Sindicato dos Rodoviários, os ônibus não vão circular na Grande Vitória nesta quarta (8) porque não há como garantir a segurança dos trabalhadores.

DIÁLOGO

As famílias reclamam que o secretário de Segurança, André Garcia, só aceita conversar se o policiamento for normalizado. "Se o movimento acabar, ele não vai procurar a gente", diz uma das mulheres, que não quis se identificar. O secretário, por sua vez, diz que tenta o diálogo. "Intransigente" é uma palavra ouvida de ambos os lados.

À tarde, o comandante-geral da PM, Nylton Rodrigues, recebeu representantes das famílias para discutir o fim do movimento e agendar uma reunião com o governo do Estado para a próxima sexta (10).

Ele se comprometeu a não punir os policiais, desde que as unidades fossem liberadas nesta terça. As mulheres do movimento decidiram continuar as manifestações.

Familiares de policiais também se reuniram com deputados na Assembleia do Estado na tentativa de estabelecer diálogo com o governo.

A Promotoria pediu, nesta terça, que as tropas da PM fossem colocadas nas ruas ainda durante a tarde, "vencendo eventual resistência e uso progressivo da força".

No documento, assinado pela promotora Karla Dias Sandoval Mattos Silva, consta ainda que os militares que permanecessem aquartelados fossem "nominalmente listados e encaminhados para providências".

PM DO ESPÍRITO SANTO - Corporação está em greve desde sexta-feira

CHORO

Durante a manhã desta terça, dezenas de familiares de vítimas de homicídios lotavam o DML (Departamento de Medicina Legal) em Vitória. Uma mãe chorava pelo filho de 19 anos, que havia saído da prisão há oito meses.

"Passaram duas pessoas de moto atirando contra ele durante o dia. Estou sem comer e sem dormir."

Já Fernando Cândido buscava um primo que não sabia se estava vivo após ter sido linchado –ele teria roubado um celular. "Ficamos sabendo por um vídeo no WhatsApp. Quando vimos, reconhecemos que quem estava apanhando era ele."

Policiais civis do departamento de homicídios relataram que a maioria dos mortos tinha sinais de execução, com tiros na cabeça, no peito e nas costas.

Apesar de aulas e atendimento em postos de saúde permanecerem suspensos, alguns comerciantes abriram as portas nesta terça e uma frota reduzida de ônibus circulou em Vitória.

O secretário da Segurança, André Garcia, disse que "gatos pingados" não deixam que os soldados saiam dos batalhões. Segundo ele, o governo enfrenta um caso "claro" de chantagem que começou a ser revertido com a chegada da Força Nacional e do Exército.


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