Folha de S. Paulo


Agente apresenta contradições durante júri do massacre do Carandiru

O segundo dia do julgamento de 15 PMs que respondem pela morte de oito detentos - e duas tentativas de homicídio - no massacre do Carandiru foi retomado hoje (18) com o depoimento do ex-secretário da Segurança Pública Pedro Franco de Campos e de um agente penitenciário do Carandiru na época do massacre.

Enquanto Campos manteve o depoimento apresentado nos dois últimos júris no caso, o agente penitenciário e chefe de plantão do pavilhão 9 na ocasião, Francisco Carlos Leme, apresentou uma fala com contradições e imprecisões.

Leme afirmou que antes da Polícia Militar entrar no pavilhão onde ocorria a rebelião já havia muitos detentos mortos no pátio. No interrogatório feito pela defesa, ele citou que viu aproximadamente 75 corpos. Porém, durante as perguntas da acusação, Leme afirmou que os números poderiam variar de 50 a 20 mortos.

Questionado se havia informado alguém sobre os corpos vistos, o agente negou e afirmou que a "diretoria já estava sabendo". "Não pensei em falar para ninguém [sobre os corpos no pátio]. Não era minha função. Era papel da chefia levar a informação."

Segundo o agente penitenciário, ainda antes da entrada da PM, ele ouviu disparos de armas de fogo de dentro dos andares superiores. A Promotoria, entretanto, questionou se os disparos haviam sido feitos de dentro ou fora do presídio, uma vez que Leme havia dito em depoimento anterior à polícia que não sabia precisar a origem dos tiros ouvidos.

O agente então reafirmou que os disparos vinham de dentro do pavilhão.

Questionado pela acusação se ele já havia sofrido agressão por parte dos detentos, o agente afirmou que não. "Nunca levei paulada, nem tapa. Nunca".

Na tentativa de apontar outra contradição, a acusação leu trecho de depoimento anterior em que o agente afirmava ter levado uma "paulada na mão".

"Pode ser que na hora dessa pergunta eu tenha me embananado", respondeu e complementou que achava que a paulada na mão não havia sido intencional. O depoimento do agente penitenciário, que trabalhou no Carandiru por 24 anos, durou pouco mais de uma hora.

O depoimento do agente penitenciário, que trabalhou no Carandiru por 24 anos, durou pouco mais de uma hora. Nele, Leme ainda disse que no tempo de trabalho do complexo penitenciário só apreendeu três armas de fogo com os detentos e que eram mais comum que os presos usassem facas artesanais e estiletes para agredir seus pares.

PRIMEIRO DEPOIMENTO

Pedro Franco de Campos, então chefe da pasta de Segurança na época, reiterou o que disse nos dois julgamentos anteriores de que a intervenção da Polícia Militar no pavilhão 9 do Carandiru foi necessária quando presos iniciaram uma rebelião, no dia 2 de outubro de 1992.

Em sua fala, que durou cerca de 15 minutos, ele negou ter consultado o então governador, Luiz Antônio Fleury Filho, para entrar a Casa de Detenção, mas afirmou que conversou como secretário adjunto e o coronel Ubiratan Guimarães, comandante da invasão.

Após ouvir as duas testemunhas de defesa, o juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo interrompeu a sessão para almoço e deverá retomar às 14h30 para o início do interrogatório dos réus.

O julgamento dos réus do massacre do Carandiru vem sendo feito em etapas. Desta vez, são julgados 15 policiais do COE (Comando de Operações Especiais) da PM pela morte de oito presos e pela tentativa de homicídio de outros dois. Em 2013, 48 PMs foram condenados pelas mortes no primeiro e no segundo andares. Eles recorrem em liberdade.


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