Folha de S. Paulo


Renúncia premiada

SÃO PAULO - Uma das poucas coisas que todos temos certeza em relação a Dilma Rousseff é que ela não renunciará. Ex-guerrilheira, a presidente gosta de citar o passado para dizer que entregar as armas não é opção, que lutará até a última instância pela própria sobrevivência política. Como diz uma amiga, Dilma tomou choque no bico do peito e não se dobrou. Nada indica que o fará agora.

Compreensível. Renúncia é desistência e isso não bate com o ideário esquerdista. Renunciar como estratégia política não funciona muito, a história deste país prova, e até nossos congressistas já aprenderam que é mais seguro apanhar no cargo.

Dilma vai preferir a morte lenta do impedimento. Confia que deixar o Planalto com o braço esquerdo erguido bradando que a luta continua, como José Dirceu fez ao ser preso, será seu ritual final de purificação. Mas está enganada. Dilma entrará para história como uma presidente incompetente, na política e na economia, capaz até de, em meio ao maior dos escândalos de corrupção, cair sem, de fato, ter se locupletado. Pior, julgada por um Congresso com contas na Suíça e campanhas pagas com dinheiro público propinado por empreiteiras.

Nem a esquerda empedernida a poupará. Dilma foi arrogante, inepta e prejudicou o projeto de poder de seu partido. Esse será o verdadeiro sacrifício da presidente, ser lembrada como piada, pelos memes, pela mandioca. Para quem lutou tanto, fracasso.

Dilma poderia buscar a expiação de seus até aqui poucos pecados da mesma forma que como guerrilheira buscou a luta armada. Ex-Petrobras, ex-Casa Civil e recipiente de duas campanhas presidenciais sob suspeição, deve ter arsenal suficiente para muitas revoluções, das que implodem "conspiradores" às que fazem a necessária profilaxia de nosso sistema político-partidário.

Dilma não fará isso para preservar os companheiros de uma geração que se vê impoluta, a despeito de qualquer crime. Mas deveria fazê-lo pelo país e por sua história.


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