Folha de S. Paulo


A triste reforma do Frevinho

Existia um lugar, na região da avenida Paulista, com um dos melhores projetos de design de interiores que já vi. Inaugurado em 1967, o restaurante Frevo da rua Augusta não passava por uma grande mudança há 20 anos.

Seu projeto, com referências a Pernambuco e um certo clima de praia, era autêntico e bem humorado.

Com teto de palha trançada escura e iluminação intimista, era desses raros lugares despretensiosos que dão vontade de contar segredos, de ter perto aqueles que amamos. Mesas e cadeiras autênticas contribuíam para o ambiente encantador.

Quem não se lembra da janela de mentira ao fundo da lanchonete, com uma imagem impressa de praia e pôr do sol. Quem nunca pensou em atravessar aquela passagem virtual, que levava a um paraíso possível, logo ali, tão perto. Moro na região e frequento a lanchonete desde que me mudei para São Paulo, em 2003, onde acompanho as transformações do Baixo Augusta.

O novo Frevo reabriu após cinco meses fechado para a reforma, "arquitetonicamente mais parecido com o da rua Oscar Freire e o do shopping Iguatemi", segundo o proprietário, Roberto Frizzo.

Sim, um espaço que poderia estar em qualquer shopping, com luz forte, espelhos, teto branquíssimo, fachada de vidro, novinho, reluzente, asseado, límpido feito um bidê.

Não que o projeto seja tão ruim, mas existem projetos que são intocáveis. A arquitetura de interiores, muito além da sua estética, carrega o valor da memória afetiva. Esse valor é incalculável. Digamos que lugares assim valem o equivalente à sua metragem quadrada em ouro, multiplicado por mil.

Por isso é tão raro entrarmos em locais assim na nossa cidade, especialmente num país em que temos vergonha do antigo, onde celebramos o novo como algo superior. Lugar antigo legal só vale em Paris.

Existem espaços maduros e históricos que abrigam lembranças e, muitas vezes, têm revestimentos, decoração e soluções de projeto que são únicos, que não encontramos em nenhum outro lugar.

São espaços com personalidade e, portanto, absolutamente maravilhosos e elegantes. Sentirei saudades. (Frevo Augusta 1967-2015).


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