Folha de S. Paulo


Pesquisadores temem ações de Trump relacionadas à ciência e ao clima

Damon Winter/The New York Times
Com menos dinheiro no orçamento, ciência pode ser uma das áreas mais afetadas
Com menos dinheiro no orçamento, ciência pode ser uma das áreas mais afetadas

A eleição de Donald Trump pode pressagiar um período de declínio para a ciência nos Estados Unidos.

Noves fora a retórica que lhe ganhou a Casa Branca, os planos que ele apresenta para a próxima gestão podem significar cortes orçamentários significativos em pesquisas.

A campanha do republicano à Presidência bateu fortemente em duas teclas: um plano vigoroso de corte de impostos, que reduziria a arrecadação em pelo menos US$ 4,4 trilhões nos próximos dez anos, e um plano de investimento em infraestrutura que consumiria US$ 1 trilhão no mesmo período.

Na prática, isso significa que haverá menos dinheiro no Orçamento americano que poderá ser direcionado para os gastos "discricionários" -aqueles que já não caem automaticamente na conta do governo por força de lei. É de onde vem o financiamento da ciência americana.

"Se o montante de gastos discricionários cai, o subcomitê de Comércio, Justiça e Ciência no Congresso receberá uma alocação menor, e eles terão menos dinheiro disponível para financiar suas agências", diz Casey Dreier, especialista em política espacial da ONG Planetary Society.

Entre os órgãos financiados diretamente por esse subcomitê estão a Fundação Nacional de Ciência (NSF), a Administração Nacional de Atmosfera e Oceano (Noaa) e a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa).

Existe a possibilidade de o financiamento sair intacto desse processo? Sim, mas não é provável. Algum outro setor precisaria pagar a conta.

SEM CLIMA

Ao menos no discurso, e fortemente apoiado por nomeações recentes, Trump já decidiu onde devem ocorrer os cortes mais profundos: ciência climática.

Que Trump se apresenta desde a campanha eleitoral como um negacionista da mudança do clima, não é segredo. No passado, ele chegou a afirmar que o aquecimento global é um embuste criado pelos chineses para tirar a competitividade da indústria americana.

(Para comprar essa versão, claro, teríamos de fingir que não foi a Nasa, agência americana, a maior e mais contundente coletora de evidências da mudança climática.)

Até aí, é o discurso antiglobalização para ganhar a eleição. Mas vai se concretizar no mandato?

Os sinais são os piores possíveis. O advogado Scott Pruitt, indicado para a EPA (Agência de Proteção do Ambiente), vê com ceticismo as políticas contra as mudanças climáticas. E o chefe da equipe de transição escolhido por Trump para a EPA é Myron Ebell, um notório negacionista da mudança climática.

O Centro para Energia e Ambiente do Instituto para Empreendimentos Competitivos, que Ebell dirige, recebe financiamento das indústrias do carvão e do petróleo. Colocá-lo para fazer a transição entre governos da EPA pode ser o clássico "deixar a raposa tomando conta do galinheiro".

Como se isso não bastasse, durante a campanha os principais consultores de Trump na área de pesquisa espacial, Robert Walker e Peter Navarro, escreveram editoriais sugerindo que a agência espacial devia parar de estudar a própria Terra.

"A Nasa deveria estar concentrada primariamente em atividades no espaço profundo em vez de trabalho Terra-cêntrico que seria melhor conduzido por outras agências", escreveram.

Há consenso entre os cientistas de que não há outro órgão com competência para tocar esses estudos e assumir a frota de satélites de monitoramento terrestre gerida pela agência espacial.

Além disso, passar as responsabilidades a outra instituição sem atribuir o orçamento correspondente é um jeito sutil de encerrar o programa de monitoramento do clima.

BACKUP

Se isso faz você ficar preocupado com o futuro das pesquisas, imagine os climatologistas nos EUA.

De acordo com o jornal "Washington Post", eles estão se organizando para criar repositórios independentes dos dados colhidos, com medo que eles sumam das bases de dados governamentais durante o governo Trump.

Ainda que a grita possa evitar esse descaramento, a interrupção das pesquisas pode ter o mesmo efeito.

"Acho que é bem mais provável que eles tentem cortar a coleção de dados, o que minimizaria seu valor", diz Andrew Dessler, professor de ciências atmosféricas da Universidade Texas A&M. "Ter dados contínuos é crucial para entender as tendências de longo prazo."

E O QUE SOBRA?

Tirando a mudança climática, a Nasa deve ter algum suporte para dar continuidade a seus planos de longo prazo durante o governo Trump -talvez com alguma mudança.

De certo, há apenas a restituição do Conselho Espacial Nacional, criado durante o governo George Bush (o pai) e desativado desde 1993.

Reunindo as principais autoridades pertinentes, ele tem por objetivo coordenar as ações entre diferentes braços do governo e, com isso, dar uma direção estratégica mais clara e eficiente aos executores das atividades espaciais.

Isso poderia significar uma ameaça ao SLS (novo foguete de alta capacidade da Nasa) e à Orion (cápsula para viagem a espaço profundo), que devem fazer seu primeiro voo teste, não tripulado, em 2018.

Contudo, o apoio a esses programas no Congresso é amplo e bipartidário, de forma que dificilmente Trump conseguirá cancelá-los.

O que ele pode é redirecionar sua função. Em vez de se tornarem as primeiras peças para a "jornada a Marte", que Barack Obama defendia para a década de 2030, eles seriam integrados num programa de exploração da Lua.

(Tradicionalmente, no Congresso americano, a Lua é um objetivo republicano, e Marte, um objetivo democrata. Não pergunte por quê.)

Trump deve ainda dar maior ênfase às iniciativas de parcerias comerciais para a exploração espacial. Em dezembro, Elon Musk, diretor da empresa SpaceX e franco apoiador da campanha de Hillary Clinton, passou a fazer parte de um grupo de consultores de Trump para a indústria de alta tecnologia.

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Áreas afetadas

NASA

Assessores de Trump querem tirar da agência a função de estudar a Terra em favor da exploração espacial

Nasa Goddard Space Flight Center/Flickr
Imagem feita pela Nasa
Imagem feita pela Nasa

PROTEÇÃO?

Scott Pruitt, indicado para Agência de Proteção do Ambiente, já processou o órgão por limitações impostas à indústria petrolífera. A agência pode perder força e deixar certas regulações a cargo dos Estados

Spencer Platt-7.dez.2016/Getty Images/AFP
Scott Pruitt chega a Trump Tower, em 7 de dezembro, para encontro com Donald Trump
Scott Pruitt chega a Trump Tower, em 7 de dezembro, para encontro com Donald Trump

PETRÓLEO

Rex Tillerson, executivo da petroleira ExxonMobil, foi indicado para o posto de secretário de Estado, o que dá mais sinais de que o governo Trump não deve se esforçar para promover fontes de energia limpa

Daniel Kramer - 21.abr.2015/Reuters
Rex Tillerson, CEO da ExxonMobil
Rex Tillerson, CEO da ExxonMobil

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