Folha de S. Paulo


Socialistas decidem pôr fim a impasse político na Espanha

O PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) decidiu neste domingo (23) que irá se abster na votação no Congresso pela formação do próximo governo da Espanha. O gesto sinaliza que o país está prestes a sair da paralisia política que já dura dez meses.

A decisão, já esperada, foi tomada durante um comitê federal dessa sigla com 139 votos a favor e 96 contra.

Os espanhóis foram às urnas em dezembro de 2015 e em junho deste ano. Em ambos os pleitos nenhum partido conseguiu reunir as 176 cadeiras necessárias para formar um governo, e seus líderes tampouco foram capazes de entrar em acordo entre si para uma aliança.

Parte do desafio é explicado pelo surgimento de novas forças políticas, como o partido de esquerda Podemos.

Juan Medina/Reuters
O prêmie em exercício, Mariano Rajoy, discursa no Parlamento espanhol, em agosto
O prêmie em exercício, Mariano Rajoy, discursa no Parlamento espanhol, em agosto

O país tem sido governado por Mariano Rajoy como premiê em exercício, em um Executivo de funções limitadas. Não é possível, por exemplo, aprovar o Orçamento para o ano que vem.

O PSOE vinha se recusando à abstenção que, no Congresso, poderia permitir um governo minoritário do conservador PP (Partido Popular), de Rajoy. A postura causou dano à imagem do partido, visto como um dos responsáveis pelo impasse. O desgaste interno levou, neste mês, à saída do então secretário-geral socialista Pedro Sánchez.

O rei Felipe deve reunir-se com os líderes dos partidos nos próximos dois dias e, previsivelmente, dar outra chance para que Rajoy forme um gabinete. Com a abstenção do PSOE, é possível que a Espanha tenha enfim um governo em plenas funções.

É possível que os debates em torno do governo de Rajoy comecem já na quarta-feira (26), com uma primeira rodada de votação no dia seguinte. Nesta etapa, o PSOE deve votar pelo "não".

Mas, no próximo sábado (29), espera-se que o partido socialista cumpra a decisão de abster-se e permita que o governo minoritário do PP seja formado com os apoios da sigla Cidadãos (centro-direita) e da Coalizão Canária.

O calendário não está a favor de lentas negociações. Se o impasse não for resolvido até o final do mês, o país necessariamente volta às urnas em meados de dezembro.

A decisão deste domingo de abster-se no Congresso foi justificada, entre as fileiras socialistas, como uma maneira de evitar essas terceiras eleições, durante as quais o partido poderia perder ainda mais votos —nos últimos dois pleitos, o PSOE registrou seus piores resultados históricos.

XADREZ DA CENTRO-ESQUERDA

A decisão, no entanto, amplia a fenda entre a liderança socialista e sua base, que protestou durante o dia diante da sede da sigla em Madri. Parte de seus eleitores preferia voltar às urnas do que ter outro governo do PP.

O PSOE passa por seu pior momento histórico. Eles tinham 48% dos votos em 1980. Hoje, são 22%. Essa é uma fossa compartilhada pelos demais partidos de centro-esquerda na Europa.

Na Grécia, o Pasok (Partido Socialista Pan-Helênico) foi varrido do espectro político, indo dos 48% em 1981 dos votos para 4% em 2015.

Na Alemanha, o SPD (Partido Social-Democrata) tem enfrentado os seus desafios. Também foram afetados o partido do presidente francês, François Hollande, e o do premiê italiano, Matteo Renzi.

O declínio preocupa, para Chris Hanretty, devido ao sucesso anterior registrado por esses mesmos partidos.

Professor na Universidade da Ânglia Oriental, Hanretty estudou a trajetória das siglas de centro-esquerda na Europa e identificou uma queda brusca desde 2005.

O contexto é complexo e envolve os efeitos da globalização e da crise financeira de 2007, após os quais esses partidos não foram capazes de oferecer uma resposta clara às aflições sociais, como o desemprego e a recessão.

O declínio da centro-esquerda foi, em alguns lugares, compensado pelo crescimento da direita radical, caso da Alemanha. Na Grécia, por outro lado, foi a esquerda radical que se beneficiou.

TRABALHO

Partidos como o PSOE são afetados, também, pelas transformações na própria ideia do que é o trabalho, afetada por avanços tecnológicos e novas e condições de emprego –por exemplo, o serviço de motoristas Uber.

"Há mudanças estruturais que particularmente afetam a esquerda, em especial o declínio da classe trabalhadora como grupo social", diz o historiador James Cronin, da Universidade Harvard.

Cronin é especializado no Partido Trabalhista britânico. Assim como o PSOE, que tem "operários" no nome, a sigla britânica tem uma base social bastante fragmentada.

"Os partidos estão obsoletos em termos de estrutura social, mas também de estratégia política", afirma. "Eles se moveram ao centro, e isso diminuiu sua habilidade de se distinguir de seus rivais."

Cronin diz que talvez a guinada ao centro tenha sido necessária para a esquerda, mas ela precisaria ter sido acompanhada de uma visão para manter-se relevante.

"Os democratas nos EUA resolveram isso melhor, tornando-se o partido das mulheres, das minorias e do liberalismo social", afirma.

COMPETIÇÃO

O declínio da centro-esquerda está também relacionado, segundo Leonardo Morlino, à concorrência. Morlino é cientista político na Universidade Guido Carli.

O PSOE perdeu votos nas duas últimas eleições para o Podemos. O Partido Democrático, na Itália, é ameaçado pelo Movimento 5 Estrelas, que hoje governa Roma.

Segundo o jornal espanhol "El País", 24,6% das pessoas que votaram no PSOE em 2011 disseram ter votado no Podemos em dezembro. "Os partidos de protesto estão roubando votos da centro-esquerda", afirma Morlino.

Pessimista, como os outros especialistas ouvidos pela Folha, ele diz que não há saída evidente para a centro-esquerda. Nesse meio tempo, partidos de extrema direita têm tido relativo sucesso em apresentar-se como a solução às crises. "Eles crescem durante os tempos de incerteza", diz Morlino. "Têm respostas ao que fazer com a imigração, o desemprego."


Endereço da página:

Links no texto: