Folha de S. Paulo


Editorial

Sangria orçamentária

Maços de notas de R$ 50 caíram do céu na região central de Recife (PE) em 9 de dezembro de 2015.

O dinheiro era arremessado de uma janela do edifício onde vivia o então presidente da Hemobrás, a empresa federal criada para produzir medicamentos oriundos do plasma sanguíneo. Naquele dia, a Polícia Federal deflagrava operação para investigar o desvio de dinheiro público na estatal.

Decorridos mais de 12 anos desde sua instituição, a Hemobrás está longe de cumprir a missão de tornar o Brasil autossuficiente na produção de hemoderivados, objetivo tido como estratégico em um mercado global oligopolizado.

Inexplicavelmente instalada em Pernambuco, longe das maiores fontes de matéria-prima, sua fábrica já consumiu R$ 1 bilhão e permanece inconclusa —paralisaram-se as obras com a apuração da PF.

Em vez de processar por ano 500 mil litros de plasma, como se pretendia, a estatal remete não mais de 200 mil litros de qualidade satisfatória a uma empresa francesa, com a qual foi assinado um contrato de transferência de tecnologia.

Essa história de malogro de um projeto da administração federal petista tem um capítulo paulista e tucano —no qual, embora não literalmente, também se joga dinheiro pela janela.

Conforme noticiou esta Folha, a fábrica de hemoderivados do Instituto Butantan, cuja construção iniciou-se em 2008 com término estimado em dois anos, encontra-se ainda inoperante depois de gastos de R$ 239 milhões.

De acordo com auditoria contratada pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), a conclusão do investimento pode demandar mais de R$ 400 milhões adicionais.

Um lapso primário compromete a empreitada. Pelo acordo firmado entre o Butantan e a Hemobrás, o primeiro trabalharia com a matéria-prima excedente da segunda —que, como já visto, simplesmente inexiste.

A Constituição proíbe a comercialização de sangue; o plasma só pode ser obtido a partir de doações, que pertencem ao setor público. Grande parte do estoque não se presta à produção de derivados por deficiência de armazenagem.

Recorde-se que a reputação do instituto paulista já foi manchada por acusações de irregularidades feitas por André Franco Montoro Filho, que deixou neste mês o posto de seu diretor-presidente.

Ao menos na auditoria sobre a fábrica estéril, não se mencionam sinais de dolo. Evidencia-se, entretanto, que a incúria e o mau planejamento costumam ser ainda mais danosos ao erário que a corrupção.

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