Folha de S. Paulo


editorial

Percepções sombrias

Uma imagem de despreocupação, otimismo e efusividade popular costuma associar-se ao Brasil. Do velho ditado, segundo o qual "Deus é brasileiro", até algumas pesquisas internacionais sobre índices de felicidade, são vários os sinais que reiteram essa impressão.

No "Relatório Mundial de Felicidade", veiculado pela ONU neste ano, ponderam-se dados de diversas naturezas, como a expectativa de vida ou a possibilidade de contar com o apoio de conhecidos. Do 24º lugar em 2013, passamos para a 17ª colocação, acima de 140 outras nações.

Tais resultados contrastam, embora não entrem em contradição, com os de um levantamento do instituto Ipsos, intitulado "O Que Preocupa o Mundo". Divulgado nesta quinta-feira (13), agrega informações recolhidas há pouco mais de um mês sobre 25 países —e situa os brasileiros no terceiro posto entre os mais pessimistas.

São 84% dos entrevistados os que dizem que o país "está na direção errada", superados apenas, por pequena margem, pelos franceses (88%) e mexicanos (85%).

Evidentemente, esse tipo de pergunta dirige as atenções de quem responde muito mais para o campo da avaliação política de um governo do que para o âmbito de suas emoções subjetivas e da vida pessoal.

Ao lado das implícitas avaliações sobre o desempenho dos governantes, também as expectativas de crescimento econômico e de poder internacional impõem sua marca na pesquisa. Desse modo, China, Rússia, Índia e Peru contam com uma maioria chancelando as direções de seus respectivos países.

Em meio a uma crise econômica sem precedentes, e na sequência de um impeachment, o Brasil não teria por que alcançar pontuação diversa. Observe-se que, de julho a setembro, o pessimismo dos brasileiros caiu levemente (de 88% para 84%), sem dúvida em decorrência da mudança de governo.

Se as propostas econômicas do presidente Michel Temer (PMDB) são necessárias, é duvidoso que, dado seu caráter amargo, possam reverter a curto prazo o predomínio de percepções sombrias a respeito do futuro. É o preço de todo conjunto de medidas desse tipo.

Os brasileiros se mostram mais preocupados com o sistema de saúde (50%) do que com a violência (48%). Nesses mesmos dois tópicos, entretanto, os índices chegaram, respectivamente, a 70% em 2014 e a perto de 60% em 2012.

Sinal, talvez, de que algum otimismo não deva ser descartado —apesar de tudo.

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