Folha de S. Paulo


Editorial: Poder diáfano

Com sua popularidade corroída, não apenas por causa dos escândalos na Petrobras, mas também devido aos sinais negativos na economia, a presidente Dilma Rousseff (PT) parece ter optado pela estratégia menos arriscada –que é, igualmente, a menos produtiva.

Praticamente desaparece de cena. Entrega a seu ministro da Fazenda o peso maior da responsabilidade pelos duríssimos ajustes em curso. Quanto à responsabilidade pelas negociatas na estatal petrolífera, Dilma a joga, de modo patético, sobre o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Enquanto isso, assiste, sem reação coerente ou iniciativa clara, a uma sequência de derrotas no Legislativo, que não parece nem perto de interromper a investida.

A atitude produz a sensação de vazio de poder no centro do Executivo; sintoma disso, e nada banal, foi o programa televisivo apresentado pelo PMDB na quinta-feira (26). Era possível identificar nas entrelinhas duas vertentes de significado na bem cuidada apresentação.

"Bem cuidada" porque soube realizar proezas de fotogenia ao enfocar, de modo quase exclusivo, o rosto impávido, o olhar supostamente franco, o sorriso bem dosado dos personagens chamados a depor no horário obrigatório.

Começando pelo vice-presidente da República, Michel Temer, seguiram-se figuras que ocupam cargos ministeriais, além do atual presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), e do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ).

As alocuções se caracterizaram por um ponto comum e por um subtexto contraditório com o que era apresentado à primeira vista.

Houve, inicialmente, preocupação em demonstrar fidelidade ao processo democrático e a Dilma Rousseff. Repetiu-se a ideia de que escolhas foram feitas, cabendo agora ao PMDB pôr em prática seus planos para a pesca, o turismo, a energia ou a agricultura.

Mas o envoltório governista dessa entrada em cena (e não por acaso o cenário do programa imitava um palco de teatro) admitia espaço para interpretações diversas.

O nome da presidente da República jamais foi pronunciado no programa. Mais que isso, Temer e seus correligionários assumiam a atitude de quem se sente no comando do Estado; uma tomada de posse televisiva, por assim dizer, ainda que só nos quadros relativamente modestos dos ministérios.

Consequência natural, e indisfarçável nos sintomas visuais e cênicos do programa, da retirada de protagonismo a que se vem conformando a presidente Dilma Rousseff. Assiste-se à coreografia: o PMDB a desenvolve habilmente, enquanto o Planalto parece, cada vez mais, inseguro do terreno.


Endereço da página: