Folha de S. Paulo


Com mediação de Macron, facções da Líbia anunciam trégua e eleição

Philippe Wojazer - 25.jul.2017/Reuters
French President Emmanuel Macron arrives with Libyan Prime Minister Fayez al-Sarraj (L), and General Khalifa Haftar (R), commander in the Libyan National Army (LNA), who shake hands after talks over a political deal to help end Libya’s crisis in La Celle-Saint-Cloud near Paris, France, July 25, 2017. REUTERS/Philippe Wojazer ORG XMIT: PAR14
Emmanuel Macron media cumprimento do premiê líbio, Fayez al-Sarraj (esq.), e o general Khalifa Haftar

Os líderes de duas facções rivais na Líbia, o marechal Khalifa Haftar, que controla o leste do país, e o primeiro-ministro do governo em Trípoli, Fayez el-Sarraj, assinaram na terça-feira (25), em Paris, uma declaração que inclui um cessar-fogo e eleições em 2018.

A declaração foi lida, em árabe, após o encontro promovido pelo presidente Emmanuel Macron no castelo de Celle-Saint-Cloud, propriedade da chancelaria francesa.

"O que é sumamente importante é que as duas partes concordaram com a organizações de eleições na próxima primavera (no hemisfério norte)", afirmou Macron.

Este foi o segundo encontro entre Sarraj e Haftar em três meses, após a conversa em Abu Dhabi em maio.

Em dez pontos, a declaração reafirma que apenas uma solução política permitirá à Líbia sair da crise. Além disso, reitera os acordos de Skhirat, assinado em 2015 sob mediação das Nações Unidas.

"É um processo que é essencial para toda a Europa, uma vez que se não conseguirmos realizar este processo, os riscos terroristas relacionados às consequências migratórias serão diretas", afirmou Macron. "O povo líbio merece a paz e nós devemos isso a eles."

O cessar-fogo não se aplicaria à luta contra o terrorismo, ressalta o texto, que pede ainda a desmobilização das milícias e a formação de um Exército regular.

Fayez el-Sarraj, líder do frágil Governo de União Nacional (GNA), conta com o reconhecimento da comunidade internacional, enquanto o marechal Khalifa Haftar contesta sua legitimidade e acumula vitórias militares no terreno.

Eles foram recebidos individualmente por Macron, antes de uma reunião tripartite com a presença do novo emissário da ONU para a Líbia, Ghassan Salame. O enviado das Nações Unidas assume suas funções esta semana.

A rivalidade política e os combates entre as milícias rivais impediram a Líbia de se recuperar do caos vivido no país desde o levante de 2011, no contexto da Primavera Árabe, que derrubou o ditador Muammar Kadhafi. Ele acabou assassinado.

O Governo de Unidade Nacional de Sarraj teve dificuldade para impor sua autoridade desde que começou seu trabalho em Trípoli, em março de 2016. A administração rival de Haftar, com sede no leste do país, não reconhece o governo de Sarraj.

Os serviços de inteligência ocidentais temem que a organização terrorista Estado Islâmico se aproveite do caos para criar redutos na Líbia, à medida que estão sendo expulsos do Iraque e da Síria.

A Líbia também se tornou o ponto de partida de milhares de migrantes africanos que querem chegar à União Europeia, viajando pelo mar até a Itália em embarcações precárias.

O chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, disse ao jornal "Le Monde" em junho que a Líbia é "prioridade" para o presidente Macron.

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Disputa de poder na LíbiaEstado Islâmico e milícias locais brigam por território no país

LÍBIA FRATURADA
País enfrenta disputa pelo poder

RAIO-X
População: 6,8 milhões de hab. (equivalente ao Maranhão)
Área: 1,8 milhão de km2 (o dobro de MT)
PIB: -3,3% (2016)

DISPUTA
Quem disputa o poder no país pós-Gaddafi

- Trípoli
É a base do Governo de Acordo Nacional, conhecido pela sigla GNA. Essa entidade foi formada com o apoio da ONU no início de 2016. Fayez al-Sarraj, um arquiteto, é o primeiro-ministro. Boa parte da comunidade internacional, incluindo os EUA, apoiam esta força, assim como diversas milícias.

- Tobruk
O Exército Nacional Líbio, liderado pelo general Khalifa Haftar, chefia Tobruk e a região leste do país. Seu poder é baseado na promessa de combater o terrorismo com vigor. Haftar havia servido com Gaddafi mas, em seguida, participou de um complô para derrubá-lo e participou da insurgência de 2011. O governo de Tobruk controla regiões de importante produção de petróleo.

- Estado Islâmico
A facção radical foi engordada pelos militantes estrangeiros que estavam na Líbia para a derrubada de Gaddafi. A organização era liderada pelo iraquiano Abu Nabil, morto em um ataque aéreo americano em 2015. Há dúvidas sobre quem é a cabeça da milícia hoje, possivelmente um homem chamado Abdul Qadr al-Nadji.

- Ansar al-Sharia
Organização terrorista formada em 2012 pela mescla de diversas milícias de menor porte. Há laços com a rede Al Qaeda - negados pelo próprio grupo - e diversos de seus membros viajaram à Síria, ao Iraque e ao Mali. Sua base é Benghazi.

Fontes: CIA World Fact Book, agências de notícias, "Newsweek"


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