Folha de S. Paulo


Análise: Eleição de hoje se caracteriza como referendo sobre o governo

As eleições municipais da Venezuela hoje encerram um ciclo de quatro eleições nos últimos 14 meses e de 19 eleições desde 1998, quando Hugo Chávez foi eleito presidente pela primeira vez.

Ainda que sejam eleições locais, a oposição as está caracterizando como um referendo sobre o governo do presidente Nicolás Maduro, depois de uma eleição presidencial especialmente contenciosa e decidida por pequena margem de votos em abril.

O comparecimento deve ser maior que o normal em uma eleição municipal, e os dois lados verão se seu nível de apoio mudou desde abril, quando Maduro venceu com 1,5 ponto percentual de vantagem sobre Henrique Capriles.

O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), situacionista, deve conquistar mais municípios, mas a oposição pode vencer em diversas das maiores cidades.

Após questionar a veracidade da votação em abril, a oposição trabalha para estimular os partidários a votar.

Algumas condições melhoraram: muitos dos homônimos e dos nomes de eleitores mortos, cuja presença a oposição temia que pudesse facilitar votos falsos, foram eliminados das listas de eleitores.

Mesmo assim, o "ventajismo" parece mais forte do que nunca na cobertura desproporcionalmente favorável ao partido do governo pela mídia e com o 8 de dezembro declarado como Dia de Lealdade a Hugo Chávez.

Depois de uma queda de sua popularidade nas pesquisas dos últimos meses, os recentes decretos do presidente, que resultaram em redução forçada de preços pelos lojistas pouco antes do Natal, parecem altamente populares com os partidários do governo e podem encorajar um maior comparecimento às urnas por esses eleitores.

Mas, independentemente do resultado das eleições, 2014 promete ser um ano de potencial mudança.

Medidas econômicas para combater a inflação, a escassez e a disparidade de 1.000% entre a taxa de câmbio oficial e a paralela, adiadas devido à sucessão quase constante de eleições desde a crise financeira de 2008, podem ser implementadas em 2014, um ano em que não há pleitos.

O descanso das urnas pode ainda oferecer uma janela de oportunidade para a substituição das autoridades eleitorais cujos mandatos expiraram meses atrás e para debater reformas eleitorais que garantam condições de campanha mais equitativas.

JENNIFER MCCOY é professora de ciência política na Universidade Estadual da Geórgia e diretora do Programa das Américas do Carter Center, em Atlanta, nos EUA.

Tradução de PAULO MIGLIACCI


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