Folha de S. Paulo


Sanções contra o Irã limitam comércio do país com Brasil, diz Patriota

O Brasil considera ineficientes e nefastas contra a população as sanções unilaterais impostas ao Irã pelos EUA e por aliados, segundo o chanceler Antonio Patriota.

Em entrevista à Folha em Teerã, onde participou da posse do presidente Hasan Rowhani, o ministro disse que as sanções afetam interesses econômicos do Brasil.

Miguel Rajmil/Efe
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota

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Folha - Como foi a visita?

Antonio Patriota - A posse de Rowhani representa uma renovação. Fui recebido por Ali Akbar Salehi [chanceler que deixou o cargo] e conversei com o novo chanceler [Mohamad Javad Zarif]. E cumprimentei pessoalmente Rowhani. Foi uma demonstração de apreço.

Ficou para trás o estranhamento no início do governo Dilma Rousseff?

Sempre houve um relacionamento correto com o Irã.

Até no caso do diplomata iraniano em Brasília [acusado de molestar crianças numa piscina], Salehi foi receptivo e deu encaminhamento que nos pareceu adequado.

Há grande sensibilidade no Irã sobre os direitos humanos. No encontro com Salehi, suscitei a questão, encorajando o país a cooperar com o sistema multilateral [Teerã é acusado de não cooperar com investigações da ONU].

O Brasil votou a favor de criar o cargo de relator especial para o Irã. Isso serve para fortalecer o sistema multilateral e obter garantia contra politização indevida.

Também acho equivocada a atitude de Israel de não se ter submetido à revisão periódica universal no Conselho de Direitos Humanos [que visa a submeter todos os países à avaliação sobre a questão].

Há ainda progressos inegáveis em educação e mortalidade infantil.

A ênfase na relação Brasil-Irã hoje está no comércio?

Num momento em que o nosso superavit comercial com o mundo diminui, negócios com o Irã continuam num patamar elevado.

Mas o comércio está limitado pelas sanções unilaterais, um modo de proceder com o qual não concordamos. O Brasil defende que sanções só devam ser adotadas no âmbito da ONU. Sanções unilaterais criam entraves financeiros e de crédito, limitando a cooperação econômica.

Valeu a pena o acordo nuclear de 2010, costurado por Brasil e Turquia, que exigiu muito esforço, gerou atrito com os EUA e acabou dando em nada?

Foram as abordagens alternativas ao acordo que não deram em nada. Houve críticas contra um esforço dentro da legalidade internacional destinado a revisitar uma medida de fortalecimento de confiança [envio do urânio altamente enriquecido para fora do Irã] e obedecendo a parâmetros estabelecidos pelas próprias potências.

Críticos disseram que seria mais produtivo adotar mais sanções. Três anos depois, novas sanções não produziram nenhum resultado e a abordagem das potências hoje é semelhante àquela de Brasil e Turquia. Hoje não se consegue um acordo de compromisso do governo iraniano. O entendimento de 2010 foi um marco na busca de uma solução pacífica.

E a decisão do Congresso dos EUA de iniciar, dois dias antes da posse de Rowhani, trâmites para novas sanções?

Não vou me pronunciar sobre as medidas, sobretudo porque ainda não têm efeito.

Esperamos que o comportamento iraniano e as reações de outros países caminhem rumo à negociação. Essa questão está inscrita na agenda do Conselho de Segurança da ONU por conta das sanções multilaterais que, diga-se de passagem, se restringem a aspectos diretamente associados às alegações de fins não pacíficos do programa nuclear iraniano. Já sanções unilaterais geram efeito negativo sobre a vida da população iraniana.


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