Folha de S. Paulo


Na Índia, pôr do sol é toque de recolher das mulheres

O país que deu ao mundo o primeiro manual sexual, o Kamasutra, e que reverencia a energia feminina -a deusa Shakti- vive hoje uma revolução de costumes. Duas Índias --a nova e a antiga-- se chocam diariamente.

Nos últimos dias, o mundo tem visto esse embate, com protestos gigantescos após o estupro coletivo dentro de um ônibus e a tortura que resultou na morte de uma jovem de 23 anos em Nova Déli.

A mulher indiana está no olho do furacão dessa disputa em uma das sociedades mais patriarcais do mundo. Há quase meio século, a Índia recebia a sua primeira governante mulher: Indira Gandhi assumiu o cargo de primeira-ministra em 1966. Mas isso não impediu as mulheres de continuarem sendo cerceadas. Até hoje elas lutam para ter o mesmo direito ao espaço público que os homens têm.

Voltar para casa antes do anoitecer é um mantra ouvido por milhões de indianas todos os dias. O pôr do sol é o primeiro aviso desse "toque de recolher". Se a mulher não obedecer e acontecer algo, ela pediu. A culpa é sempre da mulher. Nunca do homem.

As grandes empresas indianas que queiram ter funcionárias mulheres devem abrir os cofres. A lei obriga as empresas a colocar um carro com motorista a disposição das funcionárias após as 22h.

Nos seis anos em que vivi na Índia --de 2006 a 2012--, cansei de ler nos jornais notícias dessas agressões, em geral, estupro em gangue, como chamam os indianos.

Eu mesma, e muitas outras estrangeiras que conheci por lá, tomava cuidados especiais para evitar o assédio: evitava roupas chamativas e não andar de noite sozinha, pelo menos em Déli, onde o problema é mais grave. Na avalanche de comentários sobre o estupro no ônibus, muitos se perguntavam por que ela andava na rua de noite.

Há poucos meses, um político chegou a culpar o macarrão chinês cada vez mais consumido no país por aumentar a libido dos indianos.

O irônico é que mesmo na Índia moderna todos os tipos de violência contra a mulher permanecem latentes. Segundo o Departamento Nacional de Crimes, ligado ao governo, houve um aumento de 7% em crimes contra a mulher entre 2010 e 2011.

Alguns casos mobilizaram a opinião pública. Em 2008, jornais e televisões estampavam que em Mumbai duas garotas foram atacadas e assediadas sexualmente por uma multidão em numa festa de Réveillon na rua.

Há alguns meses, a maior democracia do mundo parou para debater o caso de humilhação pública de uma moça que cometeu o erro de curtir uma noite em um bar.

Ela foi arrastada pelos cabelos e humilhada por 18 homens durante 45 minutos na frente de uma câmera de televisão em uma cidade no nordeste da Índia.

Enquanto rasgava a sua roupa, a gangue masculina sorria para a lente do cinegrafista com orgulho.

O grande nó da questão é a apatia da Justiça e do governo nos casos de violência contra a mulher. Os homens não temem a polícia -que costumam acusar as mulheres sempre que acontece algo. Em uma sociedade patriarcal, meninos valem mais do que meninas. Mães se legitimam dentro de suas famílias ao darem à luz um menino e caem em desgraça quando nasce uma menina.

Que bom que dessa vez os indianos -muitos homens entre eles- foram às ruas protestar. Não foi um protesto só contra o estupro, mas contra a aceitação sutil da punição a mulheres que "ousam" ignorar "o toque de recolher" não oficial. Enquanto os conservadores culpam a influência ocidental por tudo de ruim que acontece com as mulheres, a nova Índia grita cada vez mais alto.

Altaf Qadri/Associated Press
Indianos se reúnem para velar a morte da jovem de 23 anos, que foi vítima de estupro coletivo e provocou manifestações pelo país
Indianos se reúnem para velar a morte da jovem estudante de 23 anos, que foi vítima de estupro coletivo


FLORÊNCIA COSTA, jornalista, viveu durante seis anos na Índia. É autora de "Os Indianos" (Contexto, 2012)


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