Folha de S. Paulo


Análise

Cidades têm de refletir mudança tecnológica

Herman Tacasey
Obra do artista Herman Tacasey feita com placa-mãe e componentes de computador
Obra do artista Herman Tacasey feita com placa-mãe e componentes de computador

O que é uma cidade inteligente? Seria um grande mecanismo com foco na produtividade, que facilita e controla a vida dos cidadãos, ou um ambiente onde será inventada uma nova política, pautada pela participação maciça da população?

Segundo a antropologia, o termo "cidade inteligente" é um pleonasmo: toda comunidade é fruto da articulação da inteligência coletiva. Mas o que é inteligência? Nos produtos eletrônicos que compramos diariamente, inteligência é pouco mais que um slogan vazio, e corremos o risco de aplicar essa mesma lógica comercial para a gestão das cidades.

TECNOLOGIA NACIONAL
Inteligência artificial renova a rotina e busca soluções para as cidades
Obra do artista Herman Tacasey feita com placa-mãe e componentes de computador

É preciso construir uma visão politicamente legítima, socialmente consequente e tecnologicamente viável para o futuro das cidades -alvo do Grupo de Estudos em Cidades Inteligentes na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Trata-se de um grande desafio frente aos métodos urbanísticos tradicionais, já que a popularização da tecnologia digital promoveu o surgimento de "comunidades translocais" (que conecta cidades diferentes); hábitos digitais de mobilidade urbana; a "macrometrópole", ainda maior e mais complexa do que as regiões metropolitanas tradicionais; o trabalho móvel e remoto, que está substituindo o trabalho fixo e em horário comercial e promove o rápido rearranjo do espaço urbano. Ainda, por meio do celular, cada cidadão gera um fluxo incessante de dados altamente relevantes para a gestão pública.

O aspecto crucial dessa inundação do meio urbano pela tecnologia digital é que a cidade passa a operar em rede, como um "sistema distribuído" (que não tem centros de comando, regiões centrais de maior importância).
O planejamento urbano pode ser feito em rede, tendo em primeiro plano a coletividade: um urbanismo colaborativo que constrói uma cidade com base no que faz sentido para as comunidades.

A cidade inteligente só fará sentido se for sustentada pela inteligência de cada cidadão, pelas trocas e convívios que fazem valer a pena viver nas cidades. Essa nova interação social se faz cara a cara e também por meio do celular e do e-mail, e as cidades precisam refletir essa mudança tecnológica.

A inteligência urbana está presente em iniciativas como o LabRio, o Instituto A Cidade Precisa de Você, a Rede FabLab Livre SP, o Programa Agente Comunitário de Cultura, da Prefeitura de São Paulo, espaços maker, hackerspaces e eventos como a Campus Party.

Essas são ações fundamentais para ativar e sustentar o chamado ecossistema de inovação, onde surgem ideias e propostas compartilhados pelos cidadãos, promovendo ações que fazem a cidade mais habitável por meio da tecnologia.

Assim, em sua melhor expressão, a cidade inteligente só pode ser construída a partir das comunidades que hoje se articulam por meio das redes sociais, da telecomunicação barata e popularizada: uma cidade que é feita por todos e para todos.

CAIO VASSÃO é arquiteto, urbanista e pesquisador do Grupo de Estudos em Cidades Inteligentes na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP


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