Folha de S. Paulo


Feira de arte Arco, em Madri, começa com mais promessas do que vendas

"Deu até uma nostalgia agora", dizia a galerista Marcia Fortes, sócia da paulistana Fortes Vilaça, ao receber colecionadores na Arco, em Madri. "Está tudo ótimo."

Suas saudades, no caso, são da época em que a feira, que estreou na capital espanhola há 35 anos, era o epicentro do mercado da arte latino-americana, servindo de porta de entrada de artistas da região para o mercado europeu.

Mas há mais de uma década a Arco, que reúne 221 galerias de 27 países nesta semana em Madri, não é mais a mesma. Desde que a Art Basel Miami Beach abriu no balneário americano, as forças do mercado latino se deslocaram para lá.

Mergulhada numa crise econômica há oito anos, a Espanha também não ajuda a feira a voltar aos bons tempos, embora haja um novo fôlego que começa a se mostrar agora.

Isso porque Carlos Urroz, o diretor da feira, decidiu galantear os poderosos do mercado dando espaços de graça a galerias que ajudaram a construir a reputação do evento desde os anos 1980 —nessa lista VIP entram nomes como a nova-iorquina Marian Goodman, a Fortes Vilaça e a também paulistana Luisa Strina.

"Muitas galerias já voltaram a confiar na Arco", dizia Urroz, encurralado por jornalistas num canto da sala VIP. "Não creio que este será um ano esplendoroso, mas a ideia é que funcione. Temos muitas galerias boas aqui."

São essas casas, entre outras, como a parisiense Chantal Crousel e a londrina Victoria Miro, que tiram a feira da letargia habitual nesta edição, que perdeu a superficialidade de anos anteriores, cheios de obras para chocar, e ganhou peças no mesmo nível de rivais como a Frieze, em Londres, e a Fiac, em Paris.

Nessa seção VIP da Arco, estão os estandes mais ousados e com as obras mais robustas da feira, entre elas fotografias dos americanos William Eggleston e Doug Aitken juntos na Victoria Miro e do vietnamita Dahn Vo com a libanesa Mona Hatoum na Chantal Crousel.

Reagindo à mudança, o público também mudou, com poderosos como o diretor da Art Basel, Marc Spiegler, o curador de arte latino-americana do MoMA, Luis Pérez-Oramas, e a curadora da Tate Modern, Tanya Barson, cirulando entre os convidados.

Levando 12 galerias a Madri, o Brasil também não faz feio nesta edição. Há obras de Jac Leirner, Fernanda Gomes, Waldemar Cordeiro, Waltercio Caldas, Regina Silveira, entre outros titãs da arte do país.

Nesse ponto, um novo equilíbrio se revela no mercado. Em tempos de crise, galerias nacionais concentram esforços em vendas no exterior, mas não arriscam levar artistas mais jovens com medo de não emplacar vendas e sair no prejuízo.

Quase todas as casas brasileiras levaram grifes à feira, como a carioca Anita Schwartz, com obras de Antonio Manuel e Waltercio Caldas, e Luciana Brito, com Waldemar Cordeiro e Regina Silveira. Mesmo com autores estrangeiros, a Marilia Razuk e a Dan apostaram em consagrados, como a colombiana Johanna Calle, o francês François Morellet e o venezuelano Jesús Rafael Soto.

"Vai ser cada vez mais difícil para as jovens galerias", diz María Baró, da paulistana Baró. "Os colecionadores tradicionais já têm tudo. Gente rica quer comprar o que for caro, uma marca. E as feiras estão cada vez mais caras, você não sabe se vai ter retorno."

Mesmo com a crise, Eduardo Leme, da paulistana Leme, decidiu apostar na Arco, acreditando que a SP-Arte neste ano pode ser ainda mais fraca que a feira espanhola por causa da recessão que atinge o Brasil.

"Feira é uma caixa de surpresas", diz o galerista. "Mas discordo de quem só quer vender. Uma feira só se justifica para promover um artista."

Enquanto suas obras não são vendidas, jovens artistas do país, como Jaime Lauriano, da Leme, e Ivan Grilo, da Casa Triângulo, chamam a atenção dos colecionadores espanhóis.

Vendas, de fato, por enquanto só entre consagrados. A galeria Luisa Strina vendeu obras de Alexandre da Cunha e Fernanda Gomes, a londrina Stephen Friedman vendeu peças de Tonico Lemos Auad e a paulistana Mendes Wood DM emplacou obras de Paulo Nazareth.


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