Folha de S. Paulo


Alceu Valença, Nana Caymmi e Lobão criticam lobby contra biografias não autorizadas

Os músicos Alceu Valença, Nana Caymmi e Lobão criticaram ontem o lobby contra biografias não autorizadas, encabeçado pelo grupo Procure Saber.

O grupo reúne músicos como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Djavan e Milton Nascimento. A presidente da associação é a produtora Paula Lavigne.

Procurada pela Folha, a cantora Nana Caymmi se disse contrária à necessidade de autorização do biografado. "[Exigir autorização] chama-se egoísmo. Ou então é alguém que tem alguma coisa a esconder."

Nana, cuja filha Stella Caymmi publicou livros sobre a obra do avô, Dorival Caymmi, disse ainda ter lido "Roberto Carlos em Detalhes", biografia não autorizada sobre o cantor, de autoria de Paulo César de Araújo, cuja venda foi proibida em 2006. "Não vi nada demais. É um trabalho de pesquisa, é um trabalho árduo."

O músico Alceu Valença também afirma ser contrário ao cerceamento do trabalho de autores de biografias, segundo texto de sua autoria, divulgado por sua assessoria de imprensa. Para ele, deve prevalecer a liberdade de expressão, que "deveria estar na frente de qualquer questão".

"Fala-se muito em biografias oportunistas, difamatórias, mas acredito que a grande maioria dos nossos autores está bem distante desse tipo de comportamento. Arrisco em dizer que cerceá-los seria uma equivocada tentativa de tapar, calar, esconder e camuflar a história no nosso tempo e espaço. Imaginem a necessidade de uma nova Comissão da Verdade daqui a uns 20 anos", escreveu Valença.

Na nota, o músico critica ainda a necessidade de pagamento a biografados ou herdeiros --proposta defendida pelo grupo Procure Saber. "A ideia de royalties para os biografados ou herdeiros me parece imoral. Falem mal, mas me paguem...(?) é essa a premissa??? Nem tudo pode se resumir ao vil metal!"

O músico Lobão disse à Folha ser também contrário à proibição da venda de biografias não autorizadas, que define como um "ato falho de quem tem culpa no cartório e já sabe de antemão que tem muito podre".

"Se alguém for fazer uma biografia não autorizada minha, que faça! Se tiver calúnia, vai ter de prová-la. Caso haja má-fé, a lei conta com dispositivos."

Em maio deste ano, em entrevista à "Ilustrada", Lobão criticou a produtora e presidente da Associação Procure Saber, Paula Lavigne, dizendo que ela seria "a rainha [da Lei Rouanet]".

DEFESA DA AUTORIZAÇÃO PRÉVIA

Para o grupo Procure Saber, que defende a autorização prévia para publicação de biografias, a comercialização de obras privilegia o mercado em detrimento dos biografados. A associação, entre outros pontos, também questiona os valores pagos por danos morais.

"Corremos o risco de estimular o aparecimento de biografias sensacionalistas, em um país em que a reparação pelo dano moral é ridícula", disse Paula Lavigne, porta-voz e presidente da diretoria da associação.

O posicionamento do grupo é defendido também pelo compositor Pedro Luís, pelo roqueiro Nasi e pelo sambista Wilson das Neves.

"Tudo o que se usa, paga", defende o sambista.

Nasi, que recebe 10% do preço de capa de sua biografia, "A Ira de Nasi" (Belas Letras), de Mauro Beting, diz que pagamento é justo. "Você está explorando a história e a imagem de alguém. É como se eu deixasse de receber por uma música minha gravada por outro."

Para Pedro Luís, também deve haver pagamento. "Todo mundo que é ingrediente do sucesso deve ser remunerado. Quem faz a revisão, a capa, não é remunerado? E o assunto do produto, não?"


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