Folha de S. Paulo


Livro mergulha no universo dos cadáveres

A jornalista norte-americana Mary Roach não tem papas na língua ao mergulhar no universo dos cadáveres e suas contribuições para o progresso da humanidade.

Esse é o tema de seu primeiro livro, "Curiosidade Mórbida: a Ciência e a Vida Secreta dos Cadáveres" (ed. Paralela, 2015), escrito em 2003 mas editado no Brasil apenas neste ano.

Escritora de livros de não ficção, Roach é reconhecida por best-sellers que exploram o curioso e o inóspito sobre o corpo humano.

Usos do cadáver

Suas marcas são o humor e a audácia em se colocar nos ambientes mais bizarros para sua pesquisa e até em se oferecer como cobaia, como fez para o livro "Bonk "" The Curious Coupling of Science and Sex" ("O Curioso Acasalamento da Ciência com o Sexo", em tradução livre), para o qual fez sexo com seu marido dentro de uma máquina de ressonância magnética.

"Posso me considerar uma jornalista que age em nome da ciência", disse Roach em entrevista à Folha.

Ela afirma, porém, não ter esperado tanta popularidade de um livro sobre cadáveres, que acabou se tornando best-seller e foi traduzido para mais de 17 línguas.

Roach conta ter estranhado a demora da publicação no Brasil, o que poderia um sinal de uma possível resistência da nossa sociedade. "Cada cultura tem uma linha do tempo diferente para quebrar tabus, seja relacionado ao sexo, à morte ou à raça."

COBAIAS

Em um ano de pesquisa, ela viu cadáveres serem cobaias em simuladores de acidentes de carro –experimentos que levaram a indústria a fazer carros mais seguros. O para-brisa, o airbag e o cinto de segurança de três pontos são frutos dessas pesquisas.

Também viu cadáveres serem cobaias de testes balísticos, usados para o desenvolvimento de armas e coletes à prova de balas mais resistentes. Os corpos eram de pessoas que os doaram para a ciência –a família normalmente não sabe qual uso ele terá.

Esses corpos costumam ser apresentados em pedaços, o que ajudava Roach no que chamou de "coisificação" dos mortos. "Os pesquisadores britânicos sabem o que os açougueiros já sabiam de longa data: se você quer que as pessoas fiquem à vontade diante de corpos, divida-os em pedaços", escreve.

"Nada me chocou, foi o contrário. Achei que estranharia o treinamento de cirurgiões plásticos nas cabeças humanas, mas há uma importância disso. As cirurgias plásticas e a reconstrução facial precisam ser bem feitas, sem danos aos vivos."

A dissecação para estudos da anatomia humana começou em Alexandria, por volta de 300 a.C., com um decreto real de Ptolomeu I estimulando médicos a dissecar corpos de criminosos executados.

Havia uma familiaridade com o processo devido à tradição das mumificações no Egito. Com a chegada do cristianismo, ele passou a ser visto como uma penalidade pior do que a morte. A escassez de corpos levava escolas de medicina na Escócia do século 18, por exemplo, a aceitar o pagamento do curso com corpos ao invés de dinheiro.

Essa área da medicina acabou evoluindo na clandestinidade e só foi aceita e legalizada no século passado.

Passados 12 anos do lançamento do livro, Roach afirma ter visto pouca mudança sobre o tema desde que o escreveu. "As pessoas não mudam rápido no que se refere à morte", diz, oferecendo como exemplo a demora da aceitação da cremação como uma alternativa ao enterro.

Esperava, porém, que a pesquisa sobre compostagem humana que viu na Suécia tivesse conquistado mais espaço. "Os leitores gostaram da ideia de sermos reduzidos a moléculas e devolvidos à natureza. Hoje se pode fazer um enterro verde (sem caixão), mas não a compostagem".

Ela também esperava que, devido ao sucesso, a obra estimulasse um aumento de doações de corpos e órgãos. "Tive a fantasia de pensar que o livro poderia influenciar mudanças políticas, como usar condutas existentes na Europa, onde a doação do corpo para a ciência é um pressuposto." Nos EUA e no Brasil, o caminho é inverso "" a doação deve ser autorizada.

Roach inclusive quer doar seu corpo para dissecação ou para pesquisa, mas ainda não formalizou o desejo. "O que pode refletir meu próprio desconforto com a morte."

CAMILA APPEL é autora do blog Morte sem Tabu (mortesemtabu.blogfolha.uol.com.br )


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