Folha de S. Paulo


PMs não são indiciados após morte de menino em operação no Alemão

A polícia do Rio não indiciou os policiais militares que, em 2 de abril deste ano, participaram de uma operação que resultou na morte de Eduardo de Jesus Ferreira, 10, no Complexo do Alemão, zona norte do Rio. Na ocasião, o menino foi atingido por um tiro de fuzil na cabeça.

Para o delegado Rivaldo Barbosa, da Divisão de Homicídios, os policiais agiram em "legítima defesa" já que respondiam à "injusta agressão" de traficantes da localidade conhecida como Areal, no interior da favela. No inquérito de cerca de 300 páginas, encaminhado ao Ministério Público estadual, Barbosa pede o arquivamento do caso. A Promotoria avaliará se vai seguir o pedido do delegado, se oferece denúncia ou se pede o prosseguimento das investigações.

O menino Eduardo assistia TV com a sua mãe na sala de casa quando se levantou e foi para a porta aguardar a chegada da irmã. Neste momento, cinco policiais, sendo três do Batalhão de Choque e dois da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) patrulhavam o local.

Os PMs relataram em depoimentos que se depararam com traficantes de drogas. Segundo os policiais, os criminosos iniciaram os disparos. A mãe de Eduardo, Terezinha Maria de Jesus, e moradores da comunidade negaram que houvesse qualquer troca de tiros.

"Existe o limite da própria defesa. E os PMs, foi provado pela exaustiva investigação, que eles atiraram repelindo uma injusta agressão. E lamentavelmente acabaram atingindo uma criança. Eles respondem não como se tivessem atingido a criança. Mas sim como se tivessem atingido quem eles queriam atingir (os traficantes)", disse o delegado à GloboNews, que antecipou a informação.

Após a morte do menino, os policiais Marcos Vinícius Nogueira e Rafael de Freitas admitiram ter feito os disparos contra Eduardo Ferreira. Como as balas não foram encontradas, a polícia não teve como apontar exatamente quem atirou.

Na ocasião, a notícia da morte do menino causou uma grande repercussão. A presidente Dilma Rousseff divulgou nota "se solidarizando com a família do garoto e aguardando a punição dos culpados : "Espero que as circunstâncias dessa morte sejam esclarecidas e os responsáveis, julgados e punidos", informou a nota da presidente.

Já o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão admitiu o erro da polícia : "É um erro que ninguém admite. Foi uma atuação errada. A PM apresentou os policiais e viu pela localização que tinha tido um erro ali. Quem investigou, quem viu, e quem fez esse trabalho foi a polícia. Eu falei com o pai do garoto e vou colocar todo o Estado à disposição para dar conforto à família. Isso mostra que cada vez mais temos que treinar melhor nossos policiais", comentou Pezão, 11 dias após a morte do menino.

Após o caso, a família do menino se mudou para o Piauí. Nesta tarde de terça (3), o defensor público Fábio Amado contou que discorda da conclusão do inquérito.

"Espero que o Ministério Público ofereça a denúncia ou requisite novas diligências neste caso. Não se pode aceitar que uma criança seja morta na porta de sua casa por uma polícia que é treinada e preparada pelo Estado. A família aguarda a identificação do responsável por isto", afirmou.

O vídeo abaixo, divulgado por moradores do Complexo do Alemão após a morte de Eduardo, contém imagens agressivas

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