Folha de S. Paulo


Sem-teto permanecem presos após ato por melhorias em albergue

Quatro sem-teto estão presos há dez dias após participarem de um protesto cujo estopim foi a falta de um café da manhã. Eles fazem parte de um grupo que, no ato por melhorias no albergue público Estação Vivência, na zona norte de São Paulo, fechou o trânsito de uma rua próxima com uma barricada de colchões e cobertores em chamas.

Os sem-teto são acusados de crimes graves: associação ao crime, dano qualificado ao patrimônio público e resistência à prisão. Se condenados às penas máximas, eles podem ser encarcerados por até oito anos.

Na manhã do último dia 30, cerca de 20 frequentadores do albergue se revoltaram ao serem informados que a refeição não seria servida.

"O albergue não tem condições de receber pessoas. Sem café, eles resolveram protestar na rua", disse Luciana Bedeschi, advogada que acompanha o caso.

Os frequentadores já estavam descontentes com a estrutura do local e reclamavam de alimentação ruim e presença de ratos no refeitório.

Zanone Fraissat/Folhapress
Imagem mostra albergue da região central de SP; quatro sem-teto foram presos durante protesto por melhorias no último dia 30
Imagem mostra albergue da região central de SP; quatro sem-teto foram presos durante protesto por melhorias no último dia 30

Ontem, a Folha entrou no albergue. Faltava água nas torneiras, havia poças de água suja no chão e baratas mortas próximo ao pátio onde os frequentadores comem.

Durante o ato, a PM agiu e dispensou boa parte dos manifestantes. Prendeu quatro em flagrante: o auxiliar de limpeza Hudson da Silva, 23; o entrevistador Enmanuel de Oliveira, 25; o pedreiro Vantuir Guedes, 49 e o aposentado Alexandro Costa, 53.

RESISTÊNCIA

Os policiais disseram que os quatro resistiram à prisão Ðeles negam e dizem que foram agredidos. "Um deles tinha ferimentos no corpo, mas se recusou a ser atendido no pronto-socorro", disse o delegado Guilherme Sabino.

A Defensoria Pública entrou com um pedido de habeas corpus, que foi negado pela Tribunal de Justiça porque, entre outros motivos, os sem-teto não têm endereço fixo.

Por isso, estão presos desde o dia 30 no CDP (Centro de Detenção Provisória) do Belém, zona leste.

Segundo Luciana Bedeschi, o padre Júlio Lancelotti, líder da pastoral dos moradores de rua, ofereceu endereço de uma entidade religiosa, mas a Justiça não aceitou.

A Secretaria Municipal da Assistência Social reconheceu que o espaço tem problemas de estrutura e que enviou equipes de manutenção para saná-los.

A pasta disse que vai investigar as reclamações sobre a falta e a má qualidade da alimentação.

Frequentadores do albergue e membros de movimentos sociais prometem fazer, na tarde de hoje, um protesto em frente ao Theatro Municipal, no centro.


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