Folha de S. Paulo


Crise política brasileira salvou agricultura, diz consultor

Marcelo Justo - 27.mar.2012/Folhapress
Homem manipula grãos de soja durante a colheita do final da safra em Mato Grosso
Homem manipula grãos de soja durante a colheita do final da safra em Mato Grosso

A lambança política atual do país salvou a agricultura. Mesmo com a queda de preços das commodities no exterior em boa parte do ano que passou, a renda do produtor foi compensada pela aceleração do valor do dólar, puxando internamente os preços das commodities.

A avaliação é Leonardo Sologuren, da consultoria Horizon, de Uberlândia (MG), e foi feita nesta quinta-feira (7), em Cuiabá, durante simpósio agroestratégico da Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja e de Milho do Estado de Mato Grosso).

Esse cenário de preços serviu também para amenizar a situação no campo na que foi "a safra de maior custos da história do país", segundo Endrigo Dalcin, presidente da entidade.

O agricultor não pode, no entanto, ficar apenas à espera desses momentos pontuais de acertos. Os desafios aumentam cada vez mais, exigindo conhecimento e gestão aprimorados.

"A agricultura é atualmente um banco a céu aberto."

Taxas de câmbio e de juros, cotações em Bolsas, emissão de títulos (como CPRs), hedge (trava de preços) e operação de moedas são partes do dia a dia no campo.

Sem contar que a atividade ainda está sujeita a oscilações da macroeconomia mundial.
Além desses fatores extracampo, os produtores têm de administrar os riscos do clima, da exposição de doenças e pragas nas lavouras, além das pressões da logística, segundo Sologuren.

Muitos dos desafios não estão, no entanto, nas mãos dos produtores, mas eles têm de ter uma boa gestão para enfrentá-los.

É o que ocorre no caso dos riscos políticos. Assim como desta vez a lambança política foi favorável ao setor, em outras poderá trazer condições adversas.

Pelo menos 90% dos produtores rurais não conhecem seus riscos, bem como a fragilidade e a fortaleza de seus indicadores financeiros, segundo Sologuren.

Uma das consequências é que 85% dos problemas de liquidez na área rural acontecem por uma exposição do produtor a expansões mal calculadas.

Os desafios aumentaram nos últimos anos. Além da instabilidade política, que traz variações do dólar e alta nos custos, há um encarecimento do capital. "O produtor ainda está dentro do processo de furacão", diz o analista da Horizon.

Daí a necessidade, segundo Dalcin, de a Aprosoja promover essas discussões. Os temas discutidos nesse encontro agroestratégico se irradiam por todo o setor, segundo ele.

"Apesar de tudo isso, a agricultura vai bem. O cenário político ainda traz risco, mas já parece melhor", diz Sologuren.

Mas o produtor tem de manter custos em patamares controláveis e manter liquidez em nível saudável."

O DIFERENCIAL

O conhecimento vai fazer o diferencial", segundo Daniel Latorraca, do Imea (Instituto Mato-Grossense de Economia Aplicada).

E esse conhecimento vai da capacidade de utilização de uma máquina sofisticada ao controle eficiente de pragas. Acesso a informações e boas práticas são palavras chaves, afirma ele.

Em breve, as propriedades agrícolas vão ter de ter de analista de dados a estatístico, na avaliação dele.

Não existe uma receita de bolo pronta na agricultura. O produtor vai ter de aprender a utilizar as tecnologias e procedimentos para a mitigação de condições adversas, inclusive as climáticas, segundo Antônio Luiz Fancelli, da Esalq/USP. "Ele vai ter de fazer diagnósticos."

Na avaliação de Sérgio Abuda, da Embrapa Cerrados, o produtor terá de plantar bem. O aumento da eficiência produtiva virá com semente de alta germinação, semeadura em profundidade e espaço adequados, boa proteção contra pragas e doenças, além da eliminação das ervas daninhas.

O jornalista viajou a Cuiabá a convite da Aprosoja


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