Folha de S. Paulo


O legado de Dilma

O governo Dilma e seu difuso desenvolvimentismo podem deixar ao menos um enorme legado ao país: a consolidação das leis de mercado.

Assim como Lula e o PT exterminaram a direita no Brasil tornando-se a nova direita do Brasil, Dilma está agora destruindo (ao testá-las) teses caras ao pensamento econômico da esquerda nacional, sua fé no Estado como grande agente econômico, mais eficiente e justo que o mercado.

Lula pensava e agia diferente. Forjado no sindicalismo nacional, sempre valorizou negociação e composição.

Já Dilma tocou metade de seu mandato com convicção e rigidez tamanhas que espantaram os investidores. Seu governo colocou o mercado como inimigo, quando o mercado é justamente o maior canal de recursos disponíveis no mundo para qualquer coisa. Ponto.

O PT ancora-se num fenômeno de longo prazo da economia brasileira pós-estabilidade --a explosão do mercado interno, com expansão do emprego, da renda e da formalização-- para consolidar seu poder e exercer sua política econômica enviesada. Que deu no muro.

Ao intervir abruptamente em setores estratégicos e de grande visibilidade global como o de energia, ao tentar impor retornos mínimos aos investimentos em infraestrutura, ao travar queda de braço com bancos e mercados, ao não perder oportunidade de falar mal das economias desenvolvidas e do capital internacional, o governo finalmente conseguiu matar o espírito animal dos empresários e outros agentes econômicos em relação ao Brasil.

E colocou no lugar um consumismo populista estimulado por crédito dos bancos estatais que acabou atingindo seus limites rapidamente.

Finalmente, dois preciosos anos perdidos depois, o governo percebeu que é melhor tratar bem os mercados e os investidores e tratar com rigor a inflação. O governo esboça uma tentativa de mudança, mesmo que engasgada na garganta. Privatiza com vergonha, mas privatiza, ciente de que sem a vitalidade do setor privado o marasmo econômico será inevitável.

Dilma assumiu a Presidência forte e embalada pelo crescimento vigoroso da era Lula. Baixou os juros na marra, administrou o câmbio, estimulou os setores que escolheu capacitada pela crescente arrecadação de impostos, fez tudo que os desenvolvimentistas sempre sonharam. E o resultado decepcionou todo mundo, inclusive ela. Que parece estar mudando.

Se conseguir atrair de novo o interesse dos empresários, dos empreendedores, dos investidores, dos mercados, que são em qualquer lugar do mundo os grandes criadores de riqueza, pode botar o Brasil de novo no caminho do próximo salto de desenvolvimento, tirar essa decepção, essa impressão de que paramos de novo, de pouso do último voo de galinha.

E ela terá ainda legado ao país como subproduto uma grande conquista: a derrota definitiva da crença extemporânea no Estado justo e salvador.

Só o mercado salva (o Brasil).


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