Folha de S. Paulo


Avós, filhos e netos

Qual o papel dos avós no mundo atual? Essa tem sido uma questão muito visitada por pais com filhos pequenos ou nem tanto, e também por seus próprios pais, ou seja, os avós das crianças e dos adolescentes.

Há muitas reclamações do lado dos adultos --recíprocas, por sinal -- e talvez elas sejam um dos principais motivos que tem levado muita gente a pensar no assunto. Vamos levantar algumas questões nesse tema tão antigo e, ao mesmo tempo, tão novo.

Por que seria esse um tema novo? Porque desde que a família começou a mudar e a ganhar diversos desenhos e novas dinâmicas, desde que perdemos as referências sociais rígidas, mas que eram consideradas seguras, sobre o que é ser homem e o que é ser mulher, desde que os papéis de pai e de mãe passaram a mudar, os avós entraram em crise.

Tradicionalmente, avós são velhos, e um grupo de avós de hoje não quer ser reconhecido como tal. Velhos são os bisavós, cada vez mais frequentes na vida familiar devido ao aumento da longevidade e, eles sim, com direito a ter cabelos brancos e agenda livre.

Assim, há um grupo de avós que pouco tempo tem para os netos porque estão muito envolvidos com a própria vida. Há, inclusive, avós que tem filhos quase da mesma idade que seus netos. Esse é um fenômeno bem novo, não é?

Há também um grupo de avós que gostariam de se envolver com seus netos, mas que têm poucas chances de atuar à sua maneira com as crianças porque seus filhos não querem muitas interferências na maneira de tratar seus --SEUS-- filhos. Quando eles precisam da presença dos avós com a criança, deixam orientações expressas sobre como agir em todas as situações. E sobre como não agir também.

Uma questão frequente desse grupo de pais é: como ensinar meu filho a não fazer determinada coisa em casa se os avós, na casa deles, permitem? Muitos têm se desvencilhado dessas situações simplesmente diminuindo as visitas aos avós. Como se as crianças não soubessem diferenciar os contextos que frequentam e as pessoas com quem convivem!

E há, também, um grupo de avós que acredita ocupar o lugar de seus filhos em relação aos netos: ficam com eles boa parte do tempo, cuidam, educam etc., porque seus filhos pouco tempo têm por causa do envolvimento extremo com a vida profissional.

Certamente há ainda outros grupos de avós aqui não mencionados, mas uma coisa é certa para todos eles: ser avó ou avô no mundo contemporâneo supõe a diversidade de papel, o que implica em criação e inovação, o que é muito bom.

Entretanto, mesmo com toda essa variedade de avós, todos devem --e podem-- afetar a vida de seus netos. Aliás, qual o sentido de ser avó se não for para isso?

A experiência de vida, a maturidade mesmo que com aparência juvenil, a paciência, a complacência, a generosidade, a tranquilidade, os valores e a sabedoria dos avós podem afetar positivamente os seus netos.

E tudo isso vai se expressar ora no momento de negar algo com firmeza carinhosa, ora no momento de relevar um comportamento teimoso, ora quando dá vontade de mimar o neto e na hora de narrar a história da família, de sua cultura, de suas tradições. Avós podem ser ótimos contadores de histórias da família, do conhecimento e da humanidade.

Avós e netos têm o direito a tudo isso, não é verdade?


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