Folha de S. Paulo


Além de mudar diretor e técnico, o São Paulo muda o elenco sem parar

Rubens Chiri/saopaulofc.net
Raí gesticula durante sua apresentação no São Paulo
Raí gesticula durante sua apresentação no São Paulo

Raí será o quarto diretor de futebol do São Paulo em dois anos. Gustavo de Oliveira, seu sobrinho, deixou o cargo por razões políticas em setembro de 2016. Marco Aurélio Cunha ocupou a função até o fim da Florida Cup, em janeiro desse ano, Vinicius Pinotti ficou de abril a dezembro.

No vestiário, mudanças demais têm impacto negativo. Jogador de futebol é um operário que se tornou artista. Precisa do chefe exigente da fábrica e testa sua autoridade todos os dias.

As mudanças seguidas de diretores produzem novos testes, para entender qual o limite do novo chefe. Raí foi líder quando vestiu a braçadeira de capitão do São Paulo. Mas nunca precisou ser mestre de obras.

Precisará.

Seu risco é ser engolido por uma estrutura viciada. Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, não tem de estar todos os dias no vestiário, mas gosta de fazer os negócios e sentar-se nas mesas para contratar jogadores. Raí vai pensar o futebol macro, o estilo e o caminho. Mas, se a estrutura permanecer como tem sido, terá pouca autonomia para dizer: isto sim, aquilo não.

Se o cargo virar decorativo, não será bom. Raí precisa ter liderança, entrar no vestiário, definir as regras, cobrar resultados e ser cobrado por eles. Precisa ter autonomia e mostrar que sabe o que fazer com ela.

Logo depois da eleição de Marcelo Portugal Gouvêa, em 2002, Raí ocupou um cargo na direção são-paulina. Ficou apenas três meses. As razões eram parecidas. Raí não conseguiria interferir no início da gestão de Marcelo Portugal Gouvêa, que levou ao último título da Libertadores e ao Mundial. Raí podia pensar, apenas.

É o mesmo risco agora. Quem costuma participar das negociações de jogadores para o elenco do São Paulo, junto com Leco, é o advogado Alexandre Pássaro.

Com toda a complexidade da nova função, o problema de Raí é menor do que o do São Paulo. As trocas sucessivas de treinadores e dirigentes diminuem as chances de recuperação de um clube que só conquistou um título nesta década e alcançou seu maior jejum desde que terminou a obra do Morumbi, em 1970.

São 14 passagens de treinadores depois do título brasileiro de 2008. O Palmeiras teve treze, o Santos onze, o Corinthians oito, o Real Madrid seis, o Barcelona cinco.

Quanto menos mudanças, mais sucesso.

Claro que a receita não é assim, matemática. Mas a coerência ajuda e foi o que mais faltou ao São Paulo nos últimos dez anos. Mudam técnicos, mudam dirigentes e não muda o resultado ruim, desde a Copa Sul-Americana de 2012.

O mínimo para o próximo ano é manter o treinador Dorival Júnior e reforçar o elenco em posições chave. Neste ano, o risco de rebaixamento esteve diretamente ligado ao excesso de modificações no grupo de jogadores.

Maicon, Thiago Mendes, João Schmidt, Cícero, Luiz Araújo, Lucão, Chávez, Douglas e Wesley são todos nomes que começaram o Brasileiro jogando pelo São Paulo.

Arboleda, Petros, Hernanes, Edimar e Marcos Guilherme não estavam no elenco na primeira rodada do Brasileiro.

Além de mudar o diretor de futebol e o técnico, o São Paulo muda o elenco incessantemente. A chance de dar certo assim é nenhuma.


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