Folha de S. Paulo


Consensos internos inviáveis

Em três continentes, as Américas, a Europa e a Ásia, três países relativamente relevantes vivem momentos de turbulência que ocupam a atenção internacional: a Venezuela, a Tailândia e a Ucrânia. É impossível compará-los. Os três, contudo, exibem uma característica comum: a incapacidade de tolerância interna para dar um sentido de direção às suas realidades.

Entre o quadro da Venezuela e o da Tailândia há algum paralelo. Um e outro têm governos dominados há longo tempo por partidos e líderes populistas, que dão óbvios sinais de fadiga e se tornaram inaceitáveis para segmentos urbanos modernos.

Na impossibilidade de afastá-los pelo voto, inconformada com o incomensurável poder de manobra de quem detém o governo para manter-se no comando, a população insatisfeita vai às ruas. Nos dois casos, os partidários do governo também saem às ruas na tentativa de neutralizar os opositores.

A Venezuela prendeu o líder de oposição e não dispõe de quem possa tentar construir um entendimento. O que talvez decida o futuro seja a deterioração da economia e, com ela, o processo inevitável de empobrecimento generalizado, mesmo daqueles que se beneficiam das políticas governamentais. Isso pode levar algum tempo.

O país sempre foi institucionalmente frágil. Mesmo quando a democracia funcionava e havia alternância no governo dos dois partidos dominantes: a AD, com uma base trabalhista e sindical, e o Copei, vinculado ao empresariado. Quando os partidos assumiam, dominavam as decisões em todos os níveis e esferas de governo. Quem não estava no poder, esperava a sua vez. Não havia estímulo para aprimorar as instituições.

Na Tailândia, em situações normais, o rei arbitraria as divergências. Mas está doente e afastado, sem sucessores com liderança. Há um volume de investimentos externos e locais expressivo que seguem produzindo riqueza. Se o quadro político inviabilizar a economia , as Forças Armadas possivelmente vão atuar. Isso também pode levar algum tempo.

O quadro ucraniano é diferenciado. Os conflitos internos têm uma base histórica complexa, a ofensiva russa os internacionalizou e a Ucrânia tem importância estratégica para a economia da Europa.

Pela primeira vez, o mundo passou a acreditar que o século 21 pode ser mais turbulento do que se imaginava em matéria de conflitos globais. Por sorte, este não é um período de eleições nos EUA. Não faltam vozes americanas para cobrar do governo Obama atitude mais rigorosa, liderança mais expressiva.

Tudo indica que as coisas ainda vão se complicar com a ideia de um referendo na Crimeia e a obstinação do primeiro-ministro ucraniano para que o Ocidente não hesite na defesa de suas posições.

Mas a Ucrânia não pode sangrar por muito tempo.

A perspectiva internacional do caso ucraniano obscurece o que é necessário: levar os ucranianos a acalmar os ânimos e contar menos com proteção externa. Para isso, os russos precisam se afastar, os europeus, controlar as suas expectativas e os próprios ucranianos, entender que cabe a eles as soluções.


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