Folha de S. Paulo


Por que pessoas sem filhos parecem mais felizes e donas de seu destino?

Umas das perguntas, ao meu ver, que define o mundo contemporâneo é esta: o que seria melhor, filhos ou cachorros?

Tenho discutido isso em muitos lugares e mesmo num livro recente. Por onde passo e tenho a chance de fazer essa pergunta, as pessoas riem muito e se identificam de forma silenciosa com tal questão existencial. Sabemos com razoável certeza que nunca fomos tão narcisistas como nos últimos tempos e que, se a humanidade sobreviver ao seu surto de felicidade individual, seguramente, suspeito, em algum momento olhará para trás e se perguntará por que nossos ancestrais que viveram no século 21 preferiam cachorros a filhos.

Ricardo Cammarota/Folhapress
Ilustração Luiz Felipe Pondé de 19.dez.2016

Para além do crescimento do mercado "pet" (prova evidente da minha tese), há aqui uma questão "existencial de ponta". E tudo que é "de ponta" se trata de uma expressão da maior importância no mercado motivacional.

Os índices de redução da fertilidade feminina em regiões mais desenvolvidas do mundo são evidentes. À medida em que as mulheres avançam em sua emancipação, a maternidade despenca no abismo. Não precisamos nem perder tempo tentando provar uma tese óbvia como essa. O interessante é perceber a razão de os cachorros serem objetos de afeto mais seguros do que filhos.

Sei que uma leitora atenta se perguntará como pode ser isso possível, justamente quando se defende, hoje em dia mais do que nunca, os chamados "valores femininos"? E a pergunta dessa minha atenta leitora é consistente, principalmente se percebermos que quando se fala desses tais "valores femininos", na maioria esmagadora das vezes, se escorrega para supostos valores maternais como acolhimento, amor incondicional, tolerância, cuidado e outros semelhantes. A pergunta a se fazer é: como é possível, num mundo em que a maternidade se torna, passo a passo, uma opção menor na vida das mulheres (e a paternidade na dos homens, como decorrência evidente), se falar que os "valores femininos" estão em alta?

Dito de forma direta e simples: como é possível dizer que o mundo hoje deve levar em conta os "valores femininos", uma vez que sempre chegamos à conclusão que estes são, na verdade, "valores maternais", quando ninguém que pode escolher quer ter mais de um filho ou, simplesmente, nenhum?

A resposta é simples: o método de pensamento contemporâneo é a masturbação intelectual, principalmente se lembrarmos (aplicado ao tema específico aqui discutido) que a masturbação, por definição, não fecunda mulher nenhuma.

A defesa dos "valores femininos" no mundo contemporâneo é, evidentemente, um caso típico de masturbação intelectual como método contemporâneo de pensamento.

Outro exemplo desse método é o modo obsessivo como discutimos o amor pelos filhos, a importância da educação dos mais jovens, o fato desses serem de fato a encarnação do futuro, quando, na verdade, nosso projeto é a silenciosa eliminação de jovens no mundo.

E aí voltamos à minha indagação inicial. Por que preferimos cachorros a filhos?

Qualquer pessoa emancipada, empoderada e consciente de seus direitos sabe que filhos custam caro, não devolvem amor na mesma medida em que você investe neles (seja esse investimento grana ou afeto, duas coisas cada vez mais difíceis de separar uma da outra), duram muito e, cada vez mais, questionam a autoridade dos pais. Estes, coitados, se arrastam pelo mundo se perguntando como no passado as pessoas suportavam tantos filhos à sua volta.

Basta olhar em locais públicos como pessoas sem filhos parecem mais felizes e donas de seu próprio destino. Aliás, a moda de "ser gay", suspeito, acompanha de perto essa liberdade do sexo não reprodutivo. Pais parecem cansados, sem muita opção de férias e vestidos com roupas que perdem em estilo e marca de longe para adultos apaixonados por seus filhos caninos.

Veterinários são mais baratos do que médicos, seus remédios também (por enquanto). Cachorros sempre sorriem quando chegamos em casa e, evidentemente, são mais confiáveis do que seres humanos e sua ambivalência destruidora da vida confortável que o capitalismo legou a muitos de nós.


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