Folha de S. Paulo


Pós-verdade e ignorância histórica

Editoria de Arte/Folhapress

"Indignai-vos", conclamou a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, na mesa de abertura do seminário "O Mundo Depois do Holocausto: Direitos Humanos e Direitos Nacionais", na quarta (22), na PUC-SP.

"Cada um de nós pode e deve ser um ativista", prosseguiu, aludindo à necessidade de demarcar posição no contexto das guerras narrativas contemporâneas, no qual os fatos objetivos são distorcidos por meio da manipulação dos medos, das ignorâncias e dos preconceitos coletivos.

"A informação é nossa arma", completou a professora, exortando a plateia ao bom combate contra um fenômeno tão antigo quanto a própria humanidade: a mentira factual, hoje amplificada pelas novas mídias e rebatizada de "pós-verdade" ou "fake news".

Uma rápida busca na internet, por exemplo, revela quantidade impressionante de sites, fóruns de discussão, postagens e comentários em redes sociais que procuram negar a existência do Holocausto. "No terreno pantanoso em que a verdade afunda, a mentira aflora", sentenciou Maria Luiza.

Os chamados negacionistas afirmam que não houve campos de extermínio, câmaras de gás ou qualquer espécie de genocídio durante a Segunda Guerra Mundial. Tudo não passaria de uma farsa, orquestrada pelos próprios judeus, para se vitimizarem e se vingarem de seus algozes.

Em contraponto, a professora Maria Luiza sugere uma visita ao Arquivo Virtual Holocausto e Antissemitismo, o Arqshoah (www.arqshoah.com), do qual é coordenadora, no Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP).

Ali, qualquer internauta pode ter acesso a centenas de testemunhos de refugiados judeus que vieram para o Brasil, entre os quais sobreviventes de campos de concentração nazistas. Além disso, cerca de 14 mil documentos digitalizados, incluindo fotos, circulares secretas, cartas pessoais, fichas consulares, memorandos e relatórios oficiais, reconstituem os bastidores do antissemitismo institucionalizado da Era Vargas.

"Nossa estratégia de combate deve ser justamente esta: oferecer conhecimento", conclui Maria Luiza, que dividiu a mesa do evento com a também professora Claudia Costin, colunista desta Folha. Ambas concordaram que a deturpação da verdade é fruto da ignorância histórica. Cláudia, em sua exposição, relacionou tal fenômeno à inflação de ódio que permeia os dias que correm.

"O ódio mobiliza as pessoas contra o inimigo errado", afirmou, lançando mão de um exemplo didático: a eleição de Donald Trump nos EUA.

Foram a robotização das linhas de produção e a escalada tecnológica que, ao produzir grandes transformações no mundo do trabalho, eliminaram empregos e exterminaram dezenas de profissões. "Mas Trump soube manejar o ressentimento do trabalhador branco e desempregado contra uma falsa ameaça, representada pelo imigrante."

A rigor, respeitadas as devidas especificidades históricas, a promessa de fazer a "América voltar a ser grande" de Donald Trump não difere, em forma e conteúdo, da missão proposta por Adolf Hitler de reerguer a Alemanha após as contingências impostas ao país pelo Pacto de Versalhes. O bode expiatório mais à mão, no caso germânico, foram os judeus.

Indagada pela plateia sobre o porquê de os alemães, que sempre se orgulharam da excelência de seu sistema educacional, terem se deixado convencer por um canastrão como Hitler, Claudia aproveitou para aprofundar-se naquilo em que é grande especialista. "Lá ou aqui, ontem ou hoje, não é suficiente dar acesso à educação, ainda que de 'qualidade', se esta não for pensada para formar cidadãos que se sintam confortáveis para assumir seu lugar no mundo, sem precisar negar o outro."

O inferno, afinal de contas, são sempre os outros: imigrantes, refugiados, judeus, negros, pobres, homossexuais, nordestinos, feministas, a depender do candidato a tirano. Quando o ressentimento, a ignorância, o preconceito, as frustrações e os medos atávicos da sociedade são reunidos em um mesmo balaio, manipulados pelo discurso de líderes irascíveis, o resultado é a geração de uma máquina de ódio.

Impossível, entretanto, deixar passar despercebido um precioso detalhe a respeito do seminário "O Mundo Depois do Holocausto". A promotora do evento, a Cátedra da Cultura Judaica, presidida pelo incansável professor José Luiz Goldfarb, funciona há sete anos no âmbito de uma universidade católica. Enquanto alguns semeiam ódios, existe gente disposta a exercitar o diálogo e o respeito à diferença.


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