Folha de S. Paulo


Roteiro do impeachment no Senado não prevê brecha para surpresas

A partir desta terça-feira (26), vamos assistir a mais discursos inflamados de senadores da base de Dilma Rousseff contra o que classificam de "golpe". Do outro lado, o grupo pró-impeachment da presidente, com ampla maioria no Senado, vai reagir com palavras a favor de seu afastamento.

É bem capaz que você se surpreenda com nomes de senadores dos quais nunca ouviu falar –aqueles suplentes sem um voto sequer, mas que não vão perder a chance de tentar aparecer nas transmissões ao vivo das sessões pela TV.

Talvez seja essa a única surpresa. Não se empolgue muito, nem para um lado, nem para o outro. Ao contrário da Câmara, em que a influência da negociação política no varejo rasteiro até propiciou uma expectativa momentânea de barrar o processo, o Senado não costuma pregar muita peça –toda gritaria ali dificilmente terá efeito prático, mudança de placar significativa, contra ou a favor da admissibilidade do impeachment.

O roteiro, confirmadas as expectativas dos próprios senadores, tende a não sair desse script: até o fim da semana que vem, a comissão especial aprova, por 16 a cinco, um parecer a favor da abertura do processo. Dias depois, entre 11 e 12 de maio, mais de 50 senadores ratificam a decisão em plenário. A presidente então é afastada por até 180 dias e Michel Temer assume interinamente.

No microfone do plenário, o discurso do senador Humberto Costa (PT-PE) é de "tentar reverter essa aberração", como disse na sessão de segunda (25) que elegeu a comissão especial do impeachment.

O fato é que nem Costa nem seus colegas de bancada apostam na reversão de um massacre previsível de votos contra a presidente.

"É difícil barrar, mas vamos contestar politicamente", me disse um desanimado Paulo Rocha (PT-PA), líder da bancada petista, num canto do plenário do Senado na tarde de segunda. Falava da insistência do PSDB em eleger o tucano Antonio Anastasia (MG) para a relatoria da comissão especial.

É visível no tapete azul do Senado o semblante de resignação dos senadores que trabalham para salvar Dilma. Um sentimento de jogo perdido, fôlego sumindo, e análise de erros cometidos.

Assim como ocorreu na Câmara, ex-ministros de Dilma devem votar pelo seu afastamento, entre eles Marta Suplicy (PMDB-SP), ex-petista e ex-ministra da Cultura.

Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) é outro. O ex-ministro da Previdência já declarou-se a favor da abertura do processo. Não esconde a mágoa por ter sido ignorado pela ex-chefe no período de Esplanada.

Ex-ministro de Minas e Energia dos governos Lula e Dilma, Edison Lobão (PMDB-MA) não manifestou ainda sua posição, mas os próprios senadores petistas já o contabilizam, em cálculos reservados, como voto pró-impeachment. Debitam na conta de José Sarney uma articulação para que os três senadores maranhenses se unam pelo afastamento da petista: além de Lobão, Roberto Rocha (PSB-MA) e João Alberto (PMDB-MA) –embora este último tenha dito ser contra.

É bem o que se vê hoje no Senado, um cenário de catástrofe política anunciada para Dilma e seus cada vez mais raros aliados. Provavelmente por isso o discurso de senadores do PT já esteja carregado no tom de oposição ao provável governo Temer.


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