Folha de S. Paulo


Terror em evolução

SÃO PAULO - Houve um tempo em que a maioria dos ataques terroristas era planejada e executada por grupos identificáveis e que funcionavam com base numa hierarquia rígida. A seleção dos alvos não chegava a ser aleatória, mas o objetivo central era chamar a atenção da opinião pública e eventualmente negociar a soltura de militantes da causa. O sequestro de aviões era uma ação típica dessa era. Mas, como prevê a teoria da evolução, a repressão fez com que o terror evoluísse.

Primeiro tornaram-se mais comuns os atentados suicidas, no qual a morte do perpetrador deixava de ser uma possibilidade para tornar-se uma certeza. Ataques com essa característica são muito mais difíceis de evitar. As explosões de ônibus em Israel simbolizam essa mutação.

Em seguida, veio a tecnologia das redes. Para dificultar a detecção e aumentar a publicidade, grupos como a Al Qaeda não só descentralizaram suas operações como passaram a agir como franquias. Admitiam que outros grupos ou indivíduos, com os quais tinham em comum só a ideologia, realizassem atentados em seu nome. Ataques contra símbolos físicos do inimigo e que visavam a produzir o maior número possível de vítimas tornaram-se a marca registrada da Al Qaeda: 11 de Setembro, metrô de Londres, trens de Madri.

Agora, sob a batuta do Estado Islâmico (EI), a operação em células autônomas parece ter se firmado e estimula-se cada vez mais os "lone wolves" (lobos solitários). O grupo usa a internet para recrutar militantes autóctones e que se auto-radicalizam. Os alvos passaram a ser símbolos mais abstratos do Ocidente, como a liberdade de expressão ("Charlie Hebdo"), a liberdade individual (vida noturna em Paris) e, agora, a liberdade sexual.

A exemplo de outros parasitas, é improvável que consigamos eliminar o terrorismo. Mas, para que ele não saia vitorioso, devemos zelar para que os ataques não resultem na redução de nossas liberdades.


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